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A minha amiga R já esteve algumas vezes no Rio de Janeiro, e falava-me muito da cidade. Eu confesso que tinha imensa dificuldade em fazer uma imagem mental do Rio, mesmo com a ajuda de fotografias e filmes. Era-me impossível construir uma imagem de cidade a partir da baía recortada, dos morros, da morfologia fragmentada que era a ideia que eu tinha do Rio. Só quando estive na cidade, ainda que durante uns breves dias, é que a cidade fez sentido para mim, e percebi que condições naturais tão extraordinárias para o nascimento de uma cidade tinham de tornar essa cidade também ela extraordinária, invulgar, única. É óbvio que todas as cidades, as grandes cidades, cheias de história e carácter, são únicas. Mas o Rio de Janeiro é, como saberá quem o conhece, uma cidade diferente de todas as outras, naquelas coisas que as cidades têm sempre de mais ou menos em comum. O Rio é assim, só vendo se pode ficar com uma ideia de como é.

Visitei o Rio pela primeira e única vez em Abril de 2004. Uma tarde apanhámos o bondinho para subir ao Pão de Açucar e, já no regresso, eu e mais uns companheiros de viagem fomos dar uma volta do helicóptero panorâmico que sai do morro da Urca. Sentei-me ao lado do piloto, levantámos vôo e quando peguei na máquina fotográfica para disparar a primeira foto, descobri que a pilha tinha acabado. Ainda me comecei a sentir desolado, como se o destino estivesse a congeminar contra mim, mas percebi, em breves segundos, que a única coisa a fazer era mesmo manter os olhos bem abertos e enjoy the ride. E que passeio! A viagem não durou mais do que uns quatro ou cinco minutos, seguindo da Urca em direcção ao Corcovado pelo lado de Botafogo, duas voltas à estátua do Cristo-Rei, e regresso pelo lado de Copacabana. Mas foi uma vertigem, a perspectiva vertical sobre a cidade, os edifícios altos quase ao alcance da mão, as avenidas, o trânsito constante, a orla marítima, a luz do sol, o contraste das cores, o mar lá à frente, uma daquelas coisas para fazer sem respirar.

Lembrei-me deste vôo sobre o Rio, e da minha prévia incapacidade em imaginar a cidade, a propósito do livro que estou a ler, Carnaval no Fogo, de Ruy Castro, um voluminho que a Asa editou numa colecção O Escritor e a Cidade que se esgotou, infelizmente, ao fim de escassa meia-dúzia de títulos. Eu já tinha lido dois livros do autor, a biografia de Carmen Miranda e um pequeno romance passado na corte de Dom João VI. Qualquer dos dois me fascinou e se a biografia de Carmen aprofundou a minha paixão pela carioca de Marco de Canavezes, Era No Tempo de Rei, assim se chama o romance, pôs-me a ler e a aprender mais sobre a ida da corte portuguesa para o Brasil e como essa decisão conduziu à sua inevitável independência. Agora este Carnaval no Fogo, um livro já de 2003, está-me a provocar uma vontade louca de ir comprar um bilhete de avião e ir para o Rio. RC não faz o panegírico 'nacionalistico-turistico' do Rio do Janeiro, mas tenta, nomeadamente através da sua história, captar a alma da cidade e o carácter dos seus habitantes, e fá-lo de um modo intenso e humorado, mostrando vícios e virtudes como as duas faces de uma cidade única, e sempre a fugir do ensaio para a pequena história, para a anedota, para os nomes dos protagonistas, não dos grandes momentos solenes, mas das situações quotidianas que transformaram e deram carácter à cidade.

Aqui há um par de meses o Eduardo Pitta incluiu o livro de Ruy Castro na lista dos melhores livros da primeira década do século XXI, mantendo-o nas duas versões da lista (e que estão no seu blog Da Literatura). Na altura fiquei contente, por gostar do autor e dos dois livros que já tinha lido dele, e é sempre reconfortante o reconhecimento dos outros em relação às coisas de que gostamos. Mas agora que estou a ler o Carnaval no Fogo percebo perfeitamente essa inclusão, e acho-a justíssima. O livro de Ruy Castro é verdadeiramente extraordinário, um livro envolvente e envolvido, que se lê de um folêgo porque parece ter sido escrito de um folêgo, não por ser torrencial, mas ao invés, por ter uma respiração, porque se alarga e demora, e divaga, e tem mais uma história para contar, e mais este pormenor que tinha ficado de fora. É uma conversa que se vai desenvolvendo durante, e ao ritmo, de um passeio a pé: pelo centro da cidade, pelas ruas de Ipanema, por Copacabana, pelo Carnaval, pela música, pela história, pelo tempo. É, enfim, um passeio pela cultura popular, e se há cidade marcada pela cultura dos seus habitantes, essa cidade é o Rio de Janeiro.


(Este texto foi escrito, como é óbvio, com o Saint-Clair no pensamento. Foi o Saint quem me ofereceu o passeio a pé pelo centro da cidade e pelas ruas de Ipanema, e a conversa que lhe marcou o ritmo. O Saint é o crítico mais implacável da cidade e da crueldade de que ela por vezes é capaz. Mas é também a face daquele pedaço da minha alma que ficou para sempre no Rio).