?

Log in

No account? Create an account

leavitt
infinito
innersmile
Encontrei no YouTube um clip do escritor David Leavitt a apresentar e a falar sobre a sua obra The Indian Clerk. Neste livro Leavitt ficciona uma história verdadeira, a da relação entre G.H. Hardy, professor inglês e um dos maiores génios da história da matemática, e S. Ramanujan, um escriturário indiano que era também um matemático genial mas de gestação espontânea, e é passado na Inglaterra de inícios do século passado, no eixo Londres-Oxbridge. Eu li o livro há uns dois anos e adorei. É o meu livro preferido do DL, o que é dizer bastante, dado tratar-se de um dos meus escritores favoritos, e de quem li, acho eu, toda a obra.

Voltando ao clip, acho que vale a pena vê-lo, mais não seja para ficarmos a conhecer alguma coisa dos processos criativos do autor, de como ele chegou a esta história, e do modo como surgiu na sua vida de homem de letras um fascinante interesse pela matemática. Há no clip, de resto, uma referência a Alan Turing, que foi um dos inventores da ciência da computação, e acerca de quem DL escreveu uma biografia. Turing, que durante a segunda guerra mundial trabalhou na desencriptação dos códigos secretos usados pela inteligência nazi, foi obrigado pelas autoridades britânicas a submeter-se a um tratamento para se curar da homossexualidade, e no decurso do qual, deprimido com os efeitos do tratamento, acabou por se suicidar trincando uma maçã injectada com cianeto.

A dado passo do clip Leavitt faz referência a uma certa ideia segundo a qual há apenas dois tipos de romances: aqueles que são acerca de um homem que parte numa viagem (man goes on a trip), e aqueles acerca de um estranho que chega à cidade (stranger comes to town). Acho esta classificação deliciosa, e é um exercício pensar no modo como ela se aplica aos livros que vamos lendo. Suponho que na sua génese estará a narrativa fundadora que é a Odisseia, e que cabe, à vez, nas duas classificações. No caso de The Indian Clerk, DL diz que esta história poderia ser contada em qualquer uma das perspectivas, mas que lhe era impossível contá-la na perspectiva de Ramanujan, a do homem que parte em viagem, por não ser capaz de o entender, e por isso teve de adoptar o ponto de vista de Hardy, mais parecido com o seu, e escrever a história do estrangeiro que chega à cidade.

A descoberta do clip com o DL fez-me regressar ao livro, e tenho pensado muito nele, nestes últimos dias. É engraçada esta sensação de ficarmos ligados a um livro e à história que ele conta e aos seus protagonistas. Acho que o livro não foi traduzido e publicado em Portugal, o que é uma pena, pois trata-se de um livro assaz extraordinário.