February 8th, 2010

rosas

whatever works

Segundo se diz, Whatever Works recupera um argumento antigo, dos anos 70, que Woody Allen terá deixado esquecido numa gaveta e que agora terá reescrito. E não custa muito acreditar nesta história, de tal forma o filme nos faz lembrar algumas das características dos filme de Allen da época Annie Hall: os diálogos, as piadas mordazes, o truque de falar para a câmara, a quase ausência de plot, as personagens que são mais characters do que propriamente personagens de ficção. Ok, faz lembrar o cinema que Allen fazia há trinta e tal anos, mas enunciadas assim são características de quase todos os filmes do realizador.

É óbvio que a parte de leão de interesse e curiosidade que Whatever Works desperta, mesmo em die-hard fans como eu, tem a ver com o encontro entre Allen e Larry David. É, de certo modo, um encontro feitos nas estrelas, de tal modo, agora que os vimos juntos, essa união parecia destinada a acontecer (apesar de, segundo o site imdb.com, David já ter entrado em pelo menos um filme de Allen). De certo modo é como se Allen e David fossem o Dr. Jeckyll e o Mr. Hide do mesmo tipo neurótico e obsessivo de humor, feito de incómodo existencialista, perturbação metafísica e total descrédito em toda a parte da humanidade que não é constituída por mulheres jovens e bonitas.

E o resultado do encontro é uma delícia. Apesar de Allen estar na personagem de Boris (et pour cause), a verdade é que, pelo menos na maior parte do tempo, Larry David toma integralmente conta dela. A sensação é a de estarmos a ver um filme do Woody Allen, dos verdadeiros, ou seja daqueles que são só sumo, mas ao mesmo tempo um filme que lhe escapa. Como sabem todos os apreciadores dos filmes de Allen, há sempre uma personagem, a principal por regra, que é a personificação do realizador; antigamente era quase sempre o próprio Allen que a desempenhava, mas mesmo quando não é, somos sempre capazes de identificar quem é a personagem que está a fazer de Allen. É mais ou menos como aqueles óculos e bigode à Groucho, pode lá estar o Cavaco ou a Madre Teresa de Calcutá, que nós praticamente só vemos o Groucho. Ora, o que acontece em Whatever Works é que a personalidade cómica do Larry David é tão forte que, apesar de sabermos que Boris é o Allen de serviço, nunca se limita a ser uma espécie de alter-ego de Allen, é sempre o David que estamos a ver, independentemente da máscara a la Groucho do Woody Allen.

A minha relação com os filmes de Woody Allen á antiquíssima, bastante mais velha, por exemplo, do que a sua actual mulher. E o ponto é que desde 1977, o ano em que vi Love And Death (Nem Guerra Nem Paz), vi todos os filmes de Allen nas salas de cinema e ao ritmo das respectivas estreias (mesmo os filmes anteriores a Love And Death tive a oportunidade de os ver a todos em sala), e alguns nunca mais tornei a rever, uns por falta de oportunidade, outros mesmo por falta de paciência. E o ponto é que mesmo descontando o facto de a minha memória de alguns filmes do realizador ser muito vaga, não haverá muitos filmes de Allen com uma personagem feminina tão forte como a Melody. Claro que houve grandes personagens femininas nos filmes de Allen, mas Melody, sobretudo se tomarmos em consideração que à partida é apenas o cliché da loira-burra, é um personagem que aos poucos se vai impondo e só não rouba o protagonismo a Boris porque o filme é ele, mas é muito decisiva para o desenlace da história. Estou também aqui a dar voltas à cabeça a ver se me lembro de outro filme de Allen que tenha tido personagens, ainda que secundárias, homossexuais, e onde a homossexualidade tenha tido uma parte no evoluir da história, e não apenas mote de piadas, e a verdade é que não me estou a recordar de nenhum.