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rosa lobato faria
rosas
innersmile
Já não me lembro muito bem, mas era qualquer coisa assim deste género, aproveitando o início da Balada da Neve, de Augusto Gil: «Batem leve, levemente, como quem chama por mim, será chuva, será gente. Fui ver, era o ovário». Rosa Lobato Faria dizia isto com o ar muito composto de diseur de poesia da emissora nacional, e nesse momento creio que era a Margarida Carpinteiro que lhe perguntava se o ovário era o patrão da menina. Era uma cena de um programa do Herman José, para aí dos princípios dos anos 90, não tenho a certeza, e a expressão «fui ver, era o ovário» entrou no léxico quotidiano de muita gente. O que surpreendia, e potenciava a comicidade da coisa, era o ar muito deslocado da Rosa Lobato Faria nos sketches do Herman. Ela muito tia, com aquele ar muito bem, sem nunca perder a pose de senhora fina da mais ilustre sociedade lisboeta, na realidade sem nunca deixar deslizar a personagem, acrescentava non-sense e até um toque de subversão, à loucura transcendente que era o humor do Herman José na altura.

Tanto quanto me lembro, mas pode não ter sido bem assim, penso que a Rosa Lobato Faria entrou no gang do Herman quando o Carlos Paião morreu e o Herman ficou sem alguém que lhe escrevesse as canções de teor humorístico, e foi ela que lhe passou a escrever as letras. Aliás, esta faceta de letrista para cantigas foi, a seguir às novelas que fez como actriz, a que a tornou mais conhecida do grande público, e há para aí bem mais do que uma mão cheia de canções pop, algumas com passagem, e vitória, pelo festival da canção, que têm letras suas.

Há uns dois ou três anos li um dos livros da Rosa Lobato Faria, A Alma Trocada, porque tive muita curiosidade em ver o que é que tinha a dizer em relação a um tema que me interessa e com o qual ela não parecia ter nada a ver (esta capacidade de fazer o inesperado era, pelos vistos, uma coisa que praticava com afinco). A carreira de escritora de Rosa Lobato Faria foi tardia, e eu tinha, como todos os palermas, o preconceito de que os seus livros só podiam ser maus e pobres. Fui surpreendido pela sua escrita honesta, mesmo que num estilo que não é propriamente o meu preferido, mas isso é só uma questão de gosto. Deliciei-me com certos nacos de prosa, as descrições dos sabores, dos cheiros, das texturas, o usufruir da memória das coisas. Mas surpreendeu-me mais o modo como Rosa Lobato Faria abordava o tema, a perspicácia que tinha em relação a certos aspectos que, por serem mais subtis não deixam de ser essenciais. Lembro-me na altura de ter lido um comentário, se não estou em erro do Eduardo Pitta, que dizia que o livro de Rosa Lobato Faria era a prova de que o escritor não tem de ter a experiência das coisas para poder escrever bem sobre elas. A avaliar por este livro, Rosa Lobato Faria tinha esse génio, o de perceber ou intuir aspectos da aventura humana que nunca tinha experienciado, tão-só porque percebia que o que é essencial é precisamente a parte humana da aventura.

Surpreendeu-me ainda, aquando da leitura do livro, o facto de os livros da Rosa Lobato Faria serem lidos por muita gente. Quando comentava o livro, quando aqui escrevi sobre ele, havia sempre alguém que já tinha lido alguns dos seus livros e que tinha sido tocado por eles. Talvez isso ajude a explicar, juntamente com o facto de Rosa Lobato Faria ter uma intervenção pública multi-facetada, que não se limitava aos livros e aos programas do Herman, que nas últimas horas tenham surgido tantas reacções à notícia da sua morte. Isso e o facto de Rosa Lobato Faria transmitir sempre uma imagem de afabilidade e elegância, de disponibilidade e tolerância. E sobretudo de liberdade: a liberdade de experimentar, de arriscar, e de o fazer sempre por puro deleite e diversão, sem se sentir constrangida pelo meio ou pelas convenções.