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up in the air
rosas
innersmile
Como temos de começar por algum lado, podemos começar pela banda sonora de Up In The Air. Tal como acontecia no anterior filme de Jason Reitman, Juno, uma colecção de belíssimas canções, acústicas, que abre com uma versão espantosa do clássico de Woody Guthrie, This Land Is Your Land, pela Sharon Jones, e onde se destacam, entre outros, um tema do grupo Crosby, Stills, Nash & Young, um do Elliot Smith, e, o meu preferido, que não conhecia, Going Home, de Dan Auerbach. Acho que no fim do texto vou pôr um clip com a canção, se entretanto não me esquecer.

Ok, e quanto ao filme? Como referi, o anterior filme de Jason Reitman (filho do Ivan Reitman, um dos brilhantes criadores de comédias dos anos 80, nomeadamente do clássico GhostBusters) foi o Juno, que era uma delícia de um filme sobre uma adolescente grávida, e que tinha um argumento fantástico. De certo modo o que Up In The Air vem comprovar é que tudo o que Juno tinha de bom não se resumia ao argumento, e no campo dos smart movies, Up In The Air ainda é melhor do que Juno.

Uma comédia amarga sobre um tipo que ganha a vida a voar de cidade em cidade a fazer despedimentos, um negócio emergente na altura da crise económica que assolou a América (e o mundo, claro) e durante a qual a maior parte das empresas se viu obrigada a fazer downsizings radicais. Ryan, o protagonista, tem a vida que sempre quis, acumulando sinais de vida rápida e leve: check-ins automáticos em aeroportos, hotéis e companhias de rent-a-car, flirts com mulheres bonitas e tão live-fast como ele, e milhas de frequent flyer acumuladas até níveis impensáveis. Tão contente com a sua vida, de facto, que se especializou em fazer seminários sobre como viver apenas com tudo o que cabe numa mochila.

O filme, como se entende, vive de pôr em causa as crenças de Ryan, mas fá-lo de uma forma tão subtil e ao mesmo tempo perturbadora, que por momentos acreditamos verdadeiramente naquilo que se está a passar no ecrã, e somos tocados intensamente pela experiência confrangedoramente humana de Ryan. E outra coisa que este filme prova é a excelência da direcção de actores do realizadores. Se Juno vivia muito da interpretação brilhante da Ellen Page, este Up In The Air traz-nos um George Clooney como nunca vimos antes, com uma interpretação densa, profunda, com espessura, essencial para nos levar a acreditar na personagem e a perceber a dimensão enorme do seu pequeno drama.

A vida, como sabemos, na sua maior parte, não é feita de grandes acontecimentos, de momentos decisivos e importantes, de revoluções e rupturas. A vida é quotidiana, é a vidinha, é sermos tristemente felizes na nossa condição de animais domésticos condenados ao matadouro. Felizmente durante a maior parte do tempo, conseguimos enganar essa angústia. Mas depois, de vez em quando lá aparece um cartão exclusivo de milhas acumuladas que sempre perseguimos, e que parece trazer consigo a cruel e aguda lembrança de que nada do que verdadeiramente queremos e julgamos ser, faz o mínimo sentido.

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