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laurie lee, hipátia
rosas
innersmile

Escrito quando Laurie Lee tinha já mais de 50 anos, Quando Parti Numa Manhã de Verão é um relato autobiográfico passado mais de 30 anos antes, quando o autor tinha 19 anos e decidiu abandonar a aldeia natal para se dirigir, a pé, para Londres. Depois de uma breve estadia na capital inglesa, Laurie Lee parte num barco em direcção a Espanha, desembarcando em Vigo, e percorre o país, de norte a sul, sempre a caminhar. Quando chega ao sul, a uma aldeia litoral entre Málaga e Granada, Lee instala-se, tocando violino, o seu meio de subsistência durante a travessia, num hotel. O ano é 1935 e a guerra civil de Espanha rebenta precisamente no sul do país, apanhando Lee do lado dos republicanos. Depois de regressar a Londres, resgatado por um barco que anda a recolher ingleses ao longo da costa espanhola, Lee prepara o seu regresso a Espanha para combater ao lado dos republicanos, a quem sente que abandonara com a sua fuga, e o epílogo do livro relata a sua entrada no país, atravessando, mais uma vez a pé, os Pirinéus, em pleno Inverno.

Só por este resumo se vê que é um livro irresistível, com um apelo à aventura que já não é muito comum nos nossos dias. Mais próximo do livro de memórias do que do típico livro de viagens, não deixa todavia de ser um clássico deste género, partilhando do olhar curioso do viajante, simultaneamente envolvido e distante. O retrato que resulta da Espanha dos anos pré-guerra civil é umas vezes crítico e outras deslumbrado, sempre servido por uma escrita suavemente poética e bem-humorada, por vezes mesmo irónica. Laurie Lee nunca se deixa comover com a pobreza por vezes miserável das aldeias mais perdidas, sobretudo no norte, mas também nunca foge ao seu convívio, partilhando a comida, que é pouca, uma certa aversão à autoridade.


O interesse por Hipátia de Alexandria tem a ver, como é óbvio, com o recente filme de Alejandro Amenábar,Ágora, e com a vontade de ficar a saber mais, do ponto de vista dos factos, desta personagem histórica. O livro de Maria Dzielska faz uma espécie de ponto de situação no conhecimento que temos hoje em dia acerca de Hipátia, da sua vida, mas também, e sobretudo, do papel que representou no desenvolvimento científico e do conhecimento na antiguidade, sobretudo ligado à matemática, à astronomia e à filosofia. O livro de Dzielska trata ainda, em profundidade, da maneira como o episódio da sua morte, que a autora defende ter-se tratado de um assassinato político, pode ser lido à luz da própria história da civilização, jogando-se entre o declínio do mundo helénico e a emergência do cristianismo.

Apesar de breve, o livro lança luz sobre as principais fontes da vida, da obra e da morte de Hipátia, pondo-as em confronto, e tentando extrair delas uma leitura que, mais do que objectiva, faça sentido naquilo que se conhece do seu tempo e do lugar onde viveu. E se é certo que não se fica, com a leitura do livro, a conhecer muito mais acerca biografia de Hipátia, esse conhecimento é posto em perspectiva e contextualizado, e aprende-se, isso sim, com o livro, muito acerca do tempo e da mentalidade de Alexandria, que para muitos efeitos era um dos centros do mundo antigo, e um dos lugares onde se marcou definitivamente aquilo que somos hoje em dia.