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nine
rosas
innersmile
É verdade que, como diz um amigo meu, tudo me cai bem. Ou seja, não tenho grande sentido crítico, satisfaço-me com pouco. Se uma coisa me diverte isso já é mais do que suficiente, e mesmo que me entedie um pouco, desde que não seja uma seca mortal, ainda assim sou capaz de ver coisas positivas. Isto a propósito de Nine, o filme que Rob Marshal, o realizador de Chicago, fez a partir de um musical inspirado no filme 8 ½ de F. Fellini.

O filme tem recebido muitas críticas negativas (tem sido um flop, o que, curiosamente, é um dos seus temas), e parece-me que a maior parte dessas críticas fundamentam-se na comparação do filme com a obra de Fellini, de onde parte. Quer dizer, há musicais feitos a partir de desenhos animados, de grupos rock, de peças de teatro, de romances, etc etc. Porque é que não haveria de haver (‘haveria de haver’ é lindo) um musical baseado num filme de um cineasta europeu da vanguarda artística do cinema? Nine não é um filme com a profundidade artística de 8 ½? Pois não, mas caramba, é um musical da Broadway, adaptado para cinema por um estúdio de Hollywood. A um filme com esta parentalidade não se pede exactamente caução cultural. Basta que o song & dance seja convincente e divertido. E Nine é convincente e divertido? Pois, tem os seus momentos. Tem uma mão cheia de belíssimas canções, tem duas ou três coreografias excitantes. Parece pouco, mas é qb para entreter e ter graça.

Há uma linguagem própia do teatro musical, e que tem a ver com o tipo de histórias, com a dramaturgia (que é um pouco superficial e bem intencionada), com o tipo de scores musicais e de canções, e até com os tipos de vozes e de presença em palco. A avaliar por Chicago e agora por este Nine, o Rob Marshal tenta de algum modo captar o ambiente que se sente numa sala de espectáculos quando se assiste a um musical, uma espécie de excitação e ligeireza, que, pensando bem, não está muito longe do que se sente quando se assiste a um espectáculo de ópera. E, ainda a avaliar por estes dois filmes, se é verdade que essa estratégia está à partida condenada ao fracasso, pois falta o frisson do 'ao vivo', faltam as luzes, falta a companhia dos outros espectadores, também é inegável que alguma dessa linguagem está intacta nestes dois filmes.

Isto para além da oportunidade de Nine ter um cast de luxo, com o Daniel Day-Lewis a surpreender com as canções e a dar o mínimo (ok, é mesmo o mínimo) de espessura a uma personagem que assentas num cliché, e um grupo de meninas muito composto: a Marion Cotillard, a Penélope Cruz, Dame Judy Dench, Kate Hudson, Nicole Kidman, a Fergie, que tem, na minha opinião, o melhor número do filme, e o regresso ao cinema da Sophia Loren (sempre que a vejo apetece-me ir a correr ver o Giornata Particolare, do Scola).

Uma nota para o facto de o argumento do filme ter sido o último escrito pelo cineasta Anthony Minghela, o realizador de The English Patient e de The Talented Mr. Ripley, e a cuja memória o filme é dedicado.

(Este texto, como não podia deixar de ser, é dedicado ao Zé)
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