January 15th, 2010

rosas

the other side

Por vezes passo fases em que sou atormentado por coisas do passado, não são bem recordações, são mais impressões, sentimentos que parece que ficaram enquistados na minha memória emocional. Não tem nada a ver com traumas ou coisas abusivas, nada disso. Tem a ver com zonas sombrias, escuras, com emoções e sentimentos, fragilidades dolorosas e um pouco angustiantes, sobretudo ligadas à minha adolescência e ao seu final tardio mas abrupto, e que põem em causa o equilíbrio da minha autoconfiança e da minha auto-estima.

Nestes últimos dias tenho passado por um período escuro desses. Uma daquelas coisas que fortuitamente encontramos quando andamos à procura de outra coisa num motor de busca, trouxe-me à memória pessoas e situações que aconteceram ou atravessaram a minha vida há muito tempo, e que me fizeram reavivar e reviver sentimentos de insegurança, aos quais, na altura, e tanto quanto me lembro, consegui resistir, mas que agora, quando me lembro deles, parece que me colocam em crise, porque só consigo olhar para eles, ou melhor senti-los, como oportunidades cobardemente perdidas.

Se calhar tem a ver com a chamada meia-idade, este exercício de olharmos para o passado distante e mapear essas circunstâncias em que, vistas daqui, nos cruzámos com uma oportunidade desconhecida e demos um pequeno encontrão, um breve choque de ombros, com uma promessa de felicidade.

A verdade é que vidas e vidas já se passaram depois disso. Aquilo que era eu nessa altura já morreu, e eu renasci de uma maneira necessariamente diferente. Houve aqueles cuja memória foi morrendo devagar, ao sabor do tempo e da distância. E houve quem tenha morrido mesmo, definitivamente, e se calhar o facto de a morte ter resgatado tantas dúvidas e segredos, aumenta o desvão de incerteza e insegurança.

Mas há dias luminosos e noites gloriosas lá atrás. Há tardes passadas a ler, os corpos estiraçados em bancos corridos, livro numa mão, cigarro na outra, o cinzeiro equilibrado no peito, a porta da caravana a bater ou a abrir-se para uma epifania de sol e de campo. Há noites penduradas no alto do balcão dum cinema, sessões atrás de sessões, sempre nas mesmas filas, mais à frente ou mais atrás, conversas trocadas, intervalos a fumar na varanda aberta sobre a copa das árvores da avenida.

Uma vez vi um filme, inconfessável, em que uma voz anunciava em tom dourado: it seems such a long time ago. Tudo me parece demasiado distante e inacessível. Mas há quase uma urgência, uma ânsia, em mergulhar dentro do peito e ir tocar, só tocar, esses lugares escuros que continuam a pulsar.