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o haiti não é aqui
rosas
innersmile
Deve ter sido ainda nos anos 70, eu devia andar pelos dezassete ou dezoito anos, menos de vinte em todo o caso, quando tive o meu caso com o Haiti. Foi quando li o livro de Graham Greene, Os Comediantes e, como não devo ter percebido grande coisa do livro, saí dele com uma ideia muito romântico do Haiti, que tinha a ver com uma certa decadência moral do ocidente, mas que incluía a dinastia de ditadores, Papa Doc Duvalier e o filho Baby Doc, os tonton macoute, a capital Port-au-Prince e, claro, o voodoo, que sempre foi uma coisa que me inspirou mais medo do que respeito.

Ao longo dos anos o Haiti foi perdendo fascínio, e muito contribuiu para isso a canção do Caetano Veloso, do disco Tropicália 2, que sendo tanto ou mais sobre o Brasil do que sobre o Haiti, não deixou de marcar todo o Caribe e a América do Sul com uma forte impressão de pobreza, exclusão, racismo e sida. O Haiti era, nesta altura, um dos olhos do cu do mundo, pela miséria extrema, pelo obscurantismo, pela violência do despotismo político.

"Pense no Haiti, reze pelo Haiti", dizia a canção de Caetano, e é impossível não pensar nela a propósito do devastador terramoto que destruiu o Haiti e a sua capital. Há-de haver um sentido qualquer nesta irónica crueldade. Mas se há, não se vislumbra qual possa ser.