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the pastures of heaven
rosas
innersmile


Há muito tempo que não lia nada do John Steinbeck, que, quando eu era mais novo, era um dos escritores obrigatórios na formação literária e cultural de alguém que preferia o modelo anglo-saxónico ao francês. Li agora The Pastures of Heaven, que foi uma das melhores prendas de Natal que eu tive, e li-o em inglês, o que deu outro sabor à coisa.

O livro tem uma estrutura peculiar, que o coloca entre o romance e a colecção de contos. O tema é um vale californiano, perto de Salinas e Monterey (a área de onde Steinbeck era originário), as suas quintas agrícolas e os seus habitantes. O primeiro capítulo é uma espécie de prólogo, onde o vale é descrito e é contada a sua história. Seguem-se depois dez capítulos com as histórias de outras tantas famílias e das suas casas e quintas. Cada capítulo, mais do que um conto, é uma pequena novela, com identidade e autonomia narrativa, com a sua própria conclusão. Mas há personagens que vão aparecendo ao longo de diversos contos, e um certo sentido de unidade e completude, o que dá ao texto um fôlego de romance.

Há uma família em particular, os Monroes, que aparecem em todas as histórias e que, ainda que não sejam propriamente eles quem desencadeia os particulares destinos dos protagonistas, estão sempre de algum modo ligados a esses destinos, são como que facilitadores ou aceleradores dos eventos que vão determinar o curso da acção de cada história. O que é importante, uma vez que no prólogo nos é contada a história da quinta que os Monroe vêem ocupar no vale, a Battle, que é considerada como estando amaldiçoada, apesar da terra ser muito fértil.

A escrita de Steinbeck é sempre muito simples e naturalista, há uma enorme atenção aos detalhes, quer da natureza quer das casas e dos seus habitantes. O olhar do narrador é, por assim dizer, sempre agradável, muito desperto para a beleza das coisas e para um certo fluir da vida que tem o seu quê de prazenteiro, nomeadamente no que toca às tarefas próprias da vida do campo. Mesmo as peripécias e o destino das personagens são sempre contados de uma forma positiva, o que contrasta com o evoluir dos acontecimentos. De facto estas histórias não são felizes, há sempre acontecimentos funestos, há fracturas psicológicas, tragédias, umas mais domésticas do que outras, há doenças, há vidas suspensas de verdadeiros caprichos da sorte. Quase todas as histórias acabam mal, ou pelo menos terminam com o desfazer das esperanças que o vale tinha criado aos seus protagonistas.

Talvez por isso o epílogo possa ser lido com um registo de ironia. Uma excursão de autocarro que pára uns minutos no alto da colina, e de onde os passageiros aproveitam para contemplar a beleza do vale, sonhando com a vida maravilhosa que devem levar os seus habitantes.