January 4th, 2010

rosas

tristeza

Estou muito chocado com a notícia da morte da Lhasa de Sela. Todos os dias morre gente, eu sei, mas há ocasiões em que a morte sabe ao amargo desalento da traição. A Lhasa tinha trinta e sete anos e morreu com cancro da mama. Estou chocado e comovido. A Lhasa era uma artista especial: rara, delicada, subtil. Intensa, mas com a intensidade da filigrana. Era grande como só as coisas infinitamente pequenas conseguem ser, e era íntima como as paisagens sem limite, como o deserto e o oceano. Não se podia só gostar da Lhasa de Sela, tinha-se de a amar.

Não conheço o último disco da Lhasa, mas os dois primeiros, La Llorona e The Living Road, são das coisas mais extraordinárias que eu já ouvi, canções belíssimas, com textos evocativos, que contavam histórias. Música do mundo, de raiz tradicional mas com uns toques de jazz e outros de chanson, e que tinha, como por exemplo a música da Penguin Cafe Orchestra, aquele sabor indefinível mas familiar, uma música que não conseguíamos classificar mas que nos era muito próxima, como se fosse a música de um país só nosso, interior, emocional.

A edição do disco mais recente já na parte final do ano passado veio quebrar um silêncio que soava estranho e incómodo, sobretudo numa artista que tinha admiradores certos e incondicionais. Quando tive notícia da edição do disco, tive esperança de que a Lhasa passasse mais uma vez por Portugal. Afinal este desfecho tão triste e lastimoso vem dar uma razão a esse silêncio e vem calar a esperança.

Para além de ouvir os discos, tive a sorte imensa de assistir a um concerto ao vivo da Lhasa de Sela, em Coimbra, no Gil Vicente, em Julho de 2004. Foi dos concertos mais extraordinários a que assisti. Na memória, para além das canções, fica a energia muito forte da Lhasa, que incendiou o teatro e pôs o público quase em polvorosa. Na altura escrevi aqui que "há artistas assim, parece que desaparecem, e em seu lugar fica apenas aquilo que nos dão. Lhasa é uma contadora de histórias, e o seu concerto (ontem à noite, no TAGV) fica na memória assim, como se tivesse sido passado à volta de um contador de histórias, que nos chega de uma terra misteriosa e longínqua, maravilha-nos e comove-nos e encanta-nos com as suas histórias, e parte ao final da noite, para um destino que nos é tão estranho como a sua origem. Cada canção parece existir por si, não é um recital, não é um desfiar de canções, é mesmo um ‘era uma vez’ que se encadeia em outro ‘era uma vez’. Acaba uma história e começará outra. Mas enquanto esta história dura, enquanto não chega a vez da próxima, só ela existe, só ela faz sentido. Tudo à volta perde importância e nitidez. Agora estamos presos a esta narrativa, é por ela que perpassam as nossas vidas, é nela que procuramos os sentidos ocultos, as pistas, os vislumbres, o primeiro traço da alvorada.
Por isso, há sempre uma certa tristeza, uma nostalgia. Quando esta história começa, sabemos que vai acabar, sabemos que é menos um dos mistérios que ainda estão guardados para nossa surpresa e encantamento.
Que as pessoas do lado de cá do palco estivessem em êxtase, rendidas e apaixonadas, só contribuiu para tornar este um dos concertos mais especiais a que já assisti."