January 3rd, 2010

rosas

oh, the shark has pretty teeth, dear

Aqui fica a minha prenda de ano novo para todos os amigos. Mais logo, depois de dormir um coche, hei-de vir aqui falar do filme maravilhoso onde ouvi esta versão mágica do Mack The Knife, por uma lenda da música country, Jimmie Dale Gilmore, a quem não me lembro de ter prestado atenção ou ouvido a voz até ao genérico final de Un Prophéte.

rosas

coco & igor, un prophète

Nada para inaugurar o ano como ver dois filmes seguidos. Enfim, quase seguidos, pois entre os dois houve um intervalinho para comer uma francesinha.

Coco Chanel & Igor Stravinski, de Jan Kounen, como o título indica, elabora sobre a hipótese de um romance entre a mais famosa criadora de moda do mundo e um dos maiores compositores do século XX, numa época em que Chanel ofereceu a Stravinski e à sua família refúgio na sua casa nos arredores de Paris. O filme explora vários aspectos envolvidos nessa hipótese, do encontro de génios ao choque entre formas artísticas, mas o mais interessante, acho eu, é mesmo a abordagem dos aspectos mais subtis envolvidos no triângulo amoroso estabelecido entre Chanel, Stravinski e a mulher deste, Katerina, dividida entre a gratidão a Coco e a enorme pressão destrutiva que lhe causava o affaire, consumado, passe a expressão, mesmo nas suas barbas.

Apesar de um pouco lento e por vezes mesmo arrastado, o filme vê-se muito bem e é francamente interessante. Tem meia dúzia de sequências muito bem conseguidas, nomeadamente toda a sequência inicial, a da estreia de Sagração das Primavera em Paris, e o tumulto que causou. Além disso os decórs e os figurinos são absolutamente maravilhosos, e este filme é, provavelmente, a melhor e mais rica exibição de objectos de decoração interior art deco que eu já vi.

Un Prophète é realizado por Jacques Audiard, o autor do muito celebrado De Battre Mon Coeur S’Est Arrêté, e confirma, ultrapassando, as qualidades demonstradas no filme anterior na gestão de histórias sobre a urgência identitária, sobre a necessidade de afirmação pessoal, ou tão apenas sobre a pulsão para a sobrevivência. Inserindo-se no género de filme de prisão, Un Prophète ultrapassa as fronteiras do género, e escreve-se sobretudo como um filme de crescimento e aprendizagem, uma parábola sobre a necessidade do pai e a necessidade de o matar. Hoje em dia parecem temas um pouco ultrapassados, mas isso é só porque os tempos que vivemos são um pouco patetas na maneira como evitam o confronto do indivíduo consigo próprio.

Muito do sentimento de respiração suspensa com que assistimos ao filme vem da maneira como Tahar Rahim dá corpo a Malik El Djebena, o herói do filme que, aos dezanove anos, vai parar a uma prisão onde é acolhido como protegido pelo grupo dos corsos, particularmente pelo seu chefe, César, brilhantemente desempenhado por Niels Arestrup, que já tinha entrado no filme anterior de Audiard.