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a noite mais longa do ano
rosas
innersmile
A NOITE MAIS LONGA DO ANO

Quando penso nessa noite, o que me vem à ideia é eu estar deitado no sofá, a ler o jornal, enquanto na televisão passa um programa qualquer. São quase onze da noite e Bernard, o meu pai, começa a agitar-se, o que é sinal de que se quer ir deitar. «Benji», chama-me a minha mãe, «o teu pai parece que se quer ir deitar». O meu nome é Benjamin, é assim que os meus colegas me tratam, Professor Harrer para os alunos, mas a minha mãe, juntamente com duas das suas amigas, as únicas sobreviventes do meu tempo de infância e juventude, sempre me tratou e continua a tratar por esse diminutivo irritante. «Já tinha reparado», respondo meio absorto, «mas não acha que hoje à noite ele devia deitar-se um pouco mais tarde? Afinal ainda temos os presentes para abrir». Ela continuou a olhar para a televisão, como se eu não tivesse aberto a boca.

«Vem, Bernie», digo para o meu pai, num tom que costumamos usar com as crianças e os cachorros, «anda vestir o pijama». Ele faz um esforço para se levantar, a mão direita a tremer, e eu seguro-o pelas axilas e faço força para o levantar. «Tens fome paizinho? Eu estou a morrer de fome, o jantar estava uma bela porcaria, não estava?» Tinha sido eu, pela primeira vez na vida, a fazer o jantar daquele dia especial. Foi uma teimosia. Habitualmente mandamos vir a comida de uma dessas casas que fazem entrega ao domicílio, mas eu, por preguiça de fazer uma encomenda prévia e também por alguma determinação em não quebrar a tradição da ceia, tinha insistido em fazermos o jantar em casa.

Encomendei todos os ingredientes on-line e às sete da tarde fui sentar a minha mãe numa cadeira junto à porta da cozinha. «Traz-me o telefone, Benji. Não quero perder nenhuma chamada importante». Trouxe-lhe o telefone e mal tinha posto as coisas ao lume para fazer o jantar, o telefone começou a tocar. A minha mãe ia-me dando instruções por gestos, ou no intervalo entre duas chamadas, e claramente, para ela, o jantar era uma segunda prioridade face aos telefonemas das irmãs, das primas afastadas, e das amigas com quem não estava desde o acidente. Eu enervei-me quando demasiadas coisas começaram a acontecer ao mesmo tempo e a situação no fogão parecia descontrolada. Ao mesmo tempo fui dando instruções ao meu pai, que estava parado, de pé, à porta da cozinha, atrás da cadeira da minha mãe. «Paizinho», pedi-lhe, «não te importas de ir pondo a mesa?», e fui-lhe indicando, uma por uma, as coisas que ele devia pôr na mesa: primeiro a toalha, depois os pratos, os talheres, os copos, os guardanapos, as taças e as colheres para a sobremesa, que tinha sido oferecida pela vizinha, o pão, as bebidas. A minha mãe bebe sempre Sprite, eu bebo chá gelado, e o meu pai divide a refeição: na primeira metade, bebe um copo com água onde deita as gotas do medicamento, depois, a meio, levanta-se, pega no copo e vai ao frigorífico servir-se de um vinho doce e diluído que ele compra em pacotes na mercearia perto de casa.

O jantar não estava tão bom como quando era a minha mãe a prepará-lo, mas mesmo assim era uma aproximação razoável. Ficou tudo um pouco cozinhado demais, as batatas praticamente desfeitas, o que fez alguma confusão ao meu pai, que não lhes conseguia espetar o garfo, mas o sabor estava bom. A minha mãe passou o jantar descontraída, comeu bem, elogiou a qualidade das matérias-primas, que tinha vencido a sua desconfiança relativamente às coisas que se compram através da intranet, mas sempre com um tom um pouco forçado, como que a disfarçar um certo desapontamento pela comida não estar exactamente como devia.

Dei um copo de leite amornado ao meu pai, levei-o para o quarto, despi-o, vesti-lhe o pijama, pus o penico ao lado da cama para ele não ter de ir à casa de banho durante a noite, e deitei-o. Voltei para a sala e a minha mãe desviou os olhos da telenovela que estava a seguir na tv e disse-me: «Benji, é melhor abrires os presentes do teu pai». «Acho que não vale muito a pena, mãezinha, é melhor ser ele a abri-los amanhã de manhã». «Não, Benji, amanhã já não fará muito sentido abri-los, já será tarde. Estas coisas têm um momento próprio e como muito bem sabes, o momento próprio é hoje à noite». «Mãezinha, o que não faz sentido nenhum é eu abrir os presentes que eu próprio comprei para o paizinho». «E que eu não vi», disse ela, quase no seu tom de impassibilidade, «mas faz como achares melhor. Eu estou a ver a minha novela».

Deitei-me no sofá, com a cabeça encostada ao braço elevado, tapei as pernas com uma velha manta cheia de pelos do gato Felix, que já morreu há dois anos, e peguei outra vez no jornal.
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