December 17th, 2009

rosas

homossexualidades

Contributo, à laia de comentário, no dia em que o governo de Portugal aprovou o projecto de lei que consagra a possibilidade de celebração do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo:

"(…) a paz do lar. Allende reconhecia que a isto nada se podia censurar: só que resultava inefavelmente cómico de vez em quando. O bem é um almoço em família. Allende dava-se conta de que aquilo que ele próprio recusava nestes clichés não era tanto o bem-estar ou a boa mesa (coisas que Allende apreciava grandemente), mas a imersão deliberada na normalização burguesa. Será a homossexualidade compatível com esta vida beata? O que é evidentemente incompatível com isso é uma ideia de homossexualidade inspirada em Gide, Wilde, Proust, Verlaine e Rimbaud, Luis Cernuda, Whitman, García Lorca, E.M. Forster ou Gore Vdal, para já não falarmos de Tennessee Williams ou Truman Capote ou Auden ou Christopher Isherwood. A lista interminável de homossexualidades não domésticas estendia-se a montante até Teógnis de Mégara e Sócrates e Platão, e, a jusante, compreendia toda a variegada série de homossexuais dos nossos dias (…) Em todos estes casos, a contraposição doméstico e não-doméstico, casal normalizado e casal excepcional, casal fixo e casal móvel, ou multicasal, surge muito visivelmente. Allende pensava em todas estas coisas à medida que observava como a relação de Joaquín e Pipe se consolidava por meio de uma homossexualidade normalizada, doméstica, conjugal, e que a sua própria vida assumia cada vez mais claramente a figura do homem solteiro."

- Álvaro Pombo, CONTRA-NATURA (ed. Minotauro)