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edson cordeiro
rosas
innersmile
Nem o facto de a plateia estar desoladoramente vazia beliscou aquele que foi um dos melhores concertos a que assisti: Edson Cordeiro ontem à noite, no TAGV, ofereceu uma performance rara, um espectáculo comovente e inesquecível. Não é apenas a sua imensa capacidade vocal, a capacidade de mudar de registo de canção para canção, criando com a voz e com a maneira de cantar interpretações pessoalíssimas e distintas de canções criadas por grandes divas da música vocal. É, além disso, Edson ser um artista, um crooner, com um perfeito sentido do palco, do espectáculo e do público.

Sob a forma de recital, acompanhado pelo pianista Broder Kuhne, que não se limita a ser um acompanhador, mas intervém e faz parte do próprio espectáculo, Edson Cordeiro passa em revista canções famosas e outras menos conhecidas de grandes cantoras, de Billie Holliday a Edith Piaf, passando por Madonna ou Amália, ou pelas brasileiras Dalva Oliveira e sobretudo Cármen Miranda, que ocupa a fatia maior desta homenagem. Uma das habilidades mais espectaculares da noite, acho eu, foi a recriação do clássico do disco I Love The Nightlife à maneira de Billie Holliday, nem faltando o microfone que dava à voz aquele som meio encaixotado das gravações antigas. Mas, claro, foi nos trechos de ópera que o contratenor de Edson Cordeiro soou verdadeiramente magnífico, uma coisa próxima do arrepio, que não fica a dever nada às grandes vozes de contratenor dos repertórios mais clássicos.

Mas como disse o concerto não foi só feito de voz. Edson e Broder injectam humor nas suas performances, mais directo e popular numas ocasiões, mais subtil e transgressor noutras. Outro aspecto importante é o facto de Edson usar, se maneira natural e nada espaventosa, a homossexualidade e a circunstância de ter alguma notoriedade enquanto símbolo gay, para fazer humor e provocar a plateia, introduzindo, além disso, uma nota, mais uma, pessoal nas interpretações das canções, particularmente ao masculinizar o género das palavras criadas para serem cantadas por mulheres (“disseram que eu voltei americanizado”, por exemplo).

E, como comecei por referir, nem o facto de a plateia ser escassa perturbou a excelência do concerto. A princípio tímido e até um pouco desconfiado, Edson soube cativar o público, e aos poucos, o crescendo do entusiasmo dos aplausos e a resposta aos estímulos que vinham do palco, ajudaram a criar um certo clima de festa e até de comunhão, por sermos tão poucos a ter oportunidade de partilhar esta experiência extraordinária. Foi particularmente bonito o acompanhamento ‘sotto voce’ por parte do público na canção Carinhoso, de Pixinguinha, graças também ao facto de haver muitos brasileiros na sala.

E Edson retribuiu a carinho, no final do concerto, vindo quase de imediato para o foyer do TAGV (sem aquele compasso com que as divas gostam de se fazer esperar) para assinar autógrafos e distribuir simpatia. Enfim, um privilégio raro ter estado ontem à noite com Edson Cordeiro.