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underground
rosas
innersmile

Underground foi o primeiro livro que li do escritor japonês Haruki Murakami. Mais conhecido pelos seus romances, este livro é de não-ficção, uma espécie de docu-livro sobre o ataque ao metropolitano de Tóquio com gás sarin, perpetrado pela seita Aum, em Março de 1995. Na sua edição original, Underground era composto apenas por entrevistas às vítimas do ataque e por um pequeno ensaio. Posteriormente Murakami editou um outro livro com entrevistas a antigos membros da seita, e esta edição de Underground integra essas entrevistas.

Gostei bastante mais da parte original, que está organizada por linhas de metro. Cada capítulo começa com uma descrição breve dos autores em concreto do atentado, ou seja dos homens da seita que puseram o gás na carruagem do metro, da forma como a operação foi desencadeada, seguindo-se as entrevistas às vítimas que seguiam nesse comboio ou foram por ele afectadas.

O retrato que resulta destas entrevistas é, no essencial, o de um povo muito dedicado ao trabalho, que é apanhado no seu momento mais fragilizado, quando se deslocam de manhã para o emprego já completamente focalizados no que vai ser a sua jornada de trabalho. É por isso que nos conseguimos pôr na pele destas pessoas, cujo quotidiano não será, afinal, assim tão distante do nosso. É importante essa consciência de que as vítimas do terrorismo são sempre pessoas como nós, somos sempre nós.

O outro retrato que surge é o das autoridades (todas: do metropolitano, policiais, bombeiros, hospitais) completamente perdidas perante o desencadear dos atentados, sem capacidade de reacção e de organizar uma resposta aos acontecimentos. O que, naturalmente, deixou os cidadãos ainda mais desprotegidos e fragilizados. E essa falta de planos de emergência é ainda agravada pelo facto de a seita Aum, nos meses prévios ao atentado, ter praticado uma série de ataques que as polícias teriam obrigação de ver como ensaios para um atentado em grande escala.

A segunda parte, a das entrevistas aos membros da Aum, entediou-me, talvez por não ter capacidade de compreensão nem paciência para aquele tipo de misticismo, muito cruzado com tentativas de auto-justificação. Apesar de tudo, ficam claros os métodos de funcionamento da seita, a maneira como os seus membros são aos poucos, e com que processos, desprovidos de vontade própria substituída por uma obediência, feita tanto de ilusão como de medo, ao chefe.