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memórias da infância colonial
rosas
innersmile

Aproveitei ontem o Domingo marralheiro para ler o Caderno das Memórias Coloniais, da autoria de Isabela Figueiredo, que mantém o blog Novo Mundo, sendo que os textos deste caderno resultaram de posts do anterior blog da autora. Isabela Figueiredo nasceu um ano depois de mim e saiu de Moçambique um ano antes de mim, por isso suponho que a sua memória colonial e a sua relação com essas memórias da infância, são qualquer coisa que me é familiar, com que me posso relacionar. Há um aspecto do livro, contudo, em que não me revejo, que é numa identificação que a autora faz entre essa memória colonial e a figura paterna.

O que mais gostei no livro foi do modo desabrido como a autora se refere à situação que se vivia no Moçambique colonial, sobretudo ao nível da mentalidade do colono. A autora é muito crua ao falar nos assuntos, no racismo, no estilo de vida dos brancos, nas suas aspirações, e, depois, no confronto entre os retornados e os seus familiares da ‘metrópole’. Faz bem confrontarmo-nos que todo um conjunto de problemas que foram comuns a muita gente, e que, na maior parte dos casos, foram resolvidos na intimidade das famílias um pouco à maneira do don’t ask don’t tell, assuntos que se resolveram (em muitos casos mal) por si, sem serem confrontados.

Também gostei muito do facto de o texto do livro, sendo autobiográfico, e apesar do nível de intimidade que por vezes é exposta, nunca ser de carácter confessional, nunca é um desabafo. É sempre um texto mediado pela distância literária, é, se quisermos, uma memória tratada com distanciamento literário, e isso é bom porque nos obriga a ser mais exigentes e racionais, mesmo quando a tendência de identificação com aquilo que é relatado, é maior.

Por tudo isto o livro soube-me a ajuste de contas, à necessidade de confrontar problemas que trazemos, uma herança interior, e, se não resolvê-la, pelo menos dar-lhe uma forma, torná-la um objecto exterior, para o qual possamos olhar com um mínimo de frieza, e até crueza, quando não mesmo crueldade.

Curiosamente, a autora refere, numa entrevista que vem apensa ao livro, que não regressou a Moçambique. Acho que essa necessidade de ajuste de contas vem muito disso, dessa impossibilidade de regressarmos aos lugares da infância e de nos medirmos lá. De certo modo, era isso que se passava comigo até ter regressado a Moçambique, em 2003, quando tinha 41 anos, e tinham passado mais de 26 anos desde que tinha saído. É horrível a sensação de não pertença, de que há um buraco negro no nosso passado, um lugar aonde não podemos nunca regressar, nem sequer, ao menos visitar. E de certo modo, esse meu regresso a Moçambique apaziguou-me, porque me permitiu reconhecer muitas coisas em mim, reconhecer as peças do puzzle que faltavam. Podem continuar a faltar, mas já é um avanço conseguir nomeá-las, saber quais são, e o lugar que deveriam ocupar.

Começo a falar disto e quase que não consigo parar, fico quase torrencial, a escrever ao ritmo do pensamento, e até quase num estado de semi-consciência. Mas o que quero dizer é que por todas estas razões, dialoguei muito com o livro, foi uma leitura muito importante, e aconteceu-me uma coisa muito rara, que é ter vontade de falar com a autora, quer dizer, não tanto se calhar com a pessoa que escreveu o livro, mas com a autora enquanto tal, a autora escrevente.