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a very british sex scandal
rosas
innersmile
A Very British Sex Scandal é um documentário dramatizado (um docu-drama), realizado por Patrick Reams, e apresentado no Channel 4 britânico em 2007, para assinalar os 40 anos da descriminalização da prática consentida de actos homossexuais entre adultos. Sim, até 1967, data da publicação do Sex Offences Act, a prática de actos homossexuais era considerada um crime, ao qual correspondiam pesadas penas de prisão que, no caso de ‘buggery’, podiam chegar à prisão perpétua. Buggery era o nome técnico dado à prática da sodomia, ou seja… sexo anal.

E, ao sabor do maior ou menos rigor moralista das chefias policiais, foram muitos os homens que cumpriram pena pela prática destes crimes, vítimas de raides policiais a bares e inclusivamente a casas particulares onde se suspeitava que os amantes estivessem. Em épocas mais complicadas a polícia recorria aos infames agentes provocadores, que frequentavam os locais de engate, sobretudo as casas de banho públicas e as saídas do metro, para prender aqueles que os tentavam engatar. O cottage, ou seja, o engate nos lugares públicos era o método preferido para procurar encontros sexuais, uma vez que garantia o anonimato e a precariedade necessários a quem não queria ser apanhado pela polícia a cometer um crime ou ser vítima de chantagem.

O filme, que junta testemunhos, no estilo talking head, de pessoas envolvidas no escândalo ou simples contemporâneos, com a reconstrução dramática de algumas cenas, segue o percurso de um jornalista do Daily Mail, Peter Wildeblood, que conhece, no início dos anos 50, junto a uma saída de metro, um soldado, por quem acaba por se apaixonar. No curso da sua relação, passam um fim de semana de férias, juntamente com amigos e colegas militares, numa casa de praia de Lord Montagu. Eventualmente as cartas trocadas entre ambos são descobertas pela hierarquia militar, que as passa para as instâncias judiciais civis, que não perdem a oportunidade de expor, e levar a julgamento, o aristocrata Montagu, então o mais jovem dos membros da câmara dos lordes.

Ao longo do julgamento, durante o qual Edward Montagu sempre negou o seu envolvimento, Peter Wildeblood, respondendo a uma pergunta directa do procurador, admitiu que era homossexual. Claro que isso correspondeu a uma pena de prisão, mas desencadeou igualmente uma onda de simpatia na opinião pública pelas vítimas destes crimes. Wildeblood, juntamente com outros homossexuais, viria a ser ouvido por uma comissão do Home Office, o ministério do interior inglês, que estava a estudar a reforma da legislação britânica sobre crimes sexuais, em particular no que se referia à homossexualidade e à prostituição. Em 1957 esta comissão produziu um relatório, conhecido pelo nome do seu presidente, o Wolfenden Report, onde recomendava que os comportamentos homossexuais consentidos, praticados por adultos em privado, deveriam deixar de constituir ofensa criminal, ou seja, deveriam deixar de ser crime.

Esta recomendação do relatório Wolfenden é um marco histórico na luta pelos direitos cívicos dos homossexuais em Inglaterra, tanto mais que, à época, a homossexualidade era ainda considerada, pela medicina em geral e em especial pela psiquiatria, como uma doença. E o seu fundamento prende-se sobretudo com a preservação da privacidade e com a ideia de que comportamentos privados não põem em causa a ordem pública. O relatório foi polémico e deu origem a intenso debate, o que explica que apenas dez anos depois, o parlamento tenha aprovado a lei que despenalizava a homossexualidade. E que, mesmo assim, apenas se aplicava à Inglaterra e ao País de Gales; na Escócia, apenas em 1981 a prática da homossexualidade foi retirada da lista dos crimes sexuais, e na Irlanda do Norte apenas em finais de 1982, e mesmo assim no seguimento de uma determinação do tribunal europeu dos direitos humanos.