December 1st, 2009

rosas

o ano do pensamento mágico

Fui no Domingo a Lisboa de propósito para ver uma peça de teatro, mas além disso, no geral e apesar do tempo ranhosito, o passeio foi muito bom e muito bem acompanhado. Sobretudo o declinar pelas capelinhas do Chiado abaixo, era coisa que já não fazia há muito tempo e que me soube mesmo bem.

O ano passado li um livro da Joan Didion, O Ano do Pensamento Mágico, e fiquei mito impressionado. Ainda agora fui ler o que escrevi aqui sobre o livro, na altura, e tudo o que lá digo continua a fazer todo o sentido, e sobretudo continua muito presente no meu espírito. Fiquei por isso com muita vontade de ver a adaptação que a própria escritora do texto para versão teatral, para ser interpretado pela Vanessa Redgrave, e que agora está em cena no Teatro Nacional D. Maria II, com encenação do seu director artístico, Diogo Infante, e servido pela sempre competente, e fascinante, Eunice Muñoz.

É sempre um bocado perigoso irmos ver o modo como os outros se apropriam de um texto que nós sentimos de maneira tão intensa, e por isso foi, de certa maneira, um erro ter ido ver esta peça, porque adocicou, tornou mais fácil, uma impressão que era muito rigorosa, quase dura, mesmo com o seu quê de estoicismo, apesar de o livro da Joan Didion não o ser de todo, se calhar até antes pelo contrário.
Claro que não há nada a dizer da Eunice Muñoz, para quem este espectáculo funciona um pouco como homenagem e um pouco como veículo para regresso aos palcos. O tom da actriz é o certo, e serve o texto, sem nunca, ou pelo menos sem nunca de um modo pouco subtil, se servir dele. E o próprio espectáculo cumpre, tendo em consideração que estamos a falar de uma tentativa de fazer teatro comercial, muito dirigido a um público cujo gosto e apetência é sempre superior ao grau de exigência, o que não tem nada, nada mesmo, de errado.

O problema é mesmo aquilo que já referi, a peça torna o texto da Joan Didion mais fácil, mais doce, até mais suportável numa determinada perspectiva. Ora, não há lugar mais poderoso e difícil do que o abismo do nosso espírito, do que essa sede perturbadora onde radicam os nossos medos mais fundos, e é sempre um pouco decepcionante vê-los tratados com a ligeireza de uma matiné de Domingo. Por isso saí da peça um pouco perturbado: tinha sido tudo muito agradável, ver a Eunice Muñoz em palco é sempre uma emoção (e felizmente já não é a minha primeira), mas sabe-nos sempre a fraude vermos tratados com alguma superficialidade os nosso transtornos mais íntimos.