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byrne em portugal
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O David Byrne e a sua namorada, a fotógrafa Cindy Sherman, estiveram em Portugal, para integrarem o júri do festival de cinema do Estoril. Esta passagem do DB por Portugal já rendeu três entradas no seu blog (seguir o link: journal.davidbyrne.com): a última sobre o próprio festival e os filmes premiados, a anterior sobre Sintra e os templários, e a primeira, e a meu ver a mais interessante, sobre a arte e a cultura nos tempos que correm.

O DB é muito palavroso, as entradas do diário são muito extensas, mas as suas ideias são muito interessantes, porque reflectem uma pessoa que tem muita experiência na área da cultura popular, que acompanha as vanguardas artísticas, e que é um tipo muito atento, curioso, interessado e reflectido.

Esse texto do blog datado de 9 de Novembro tem ainda o interesse suplementar de poder ler as reflexões do DB motivadas ou sugeridas pelos seus companheiros de estadia e de festival, nomeadamente o coreógrafo Rui Horta, a Inês de Medeiros ou o Francis Coppola, que também esteve no Estoril a apresentar o seu filme mais recente.

É, como disse, um texto longo, e com vários pontos de interesse. Chamaram-me a atenção dois em particular. O primeiro surge como reacção à opinião de que a partilha de ficheiros e os downloads ilegais estão a matar a música, ao que o DB contrapõe que a ameaça séria existe apenas em relação à indústria discográfica e a alguns músicos, e que os consumidores que fazem mais partilha de ficheiros são também aqueles que gastam mais dinheiro em produtos relacionados com a música, nomeadamente com concertos. Contrapõe ainda que a tecnologia digital dá aos artistas maior controlo sobre as suas obras, e que isso vale igualmente para a distribuição.

O outro aspecto que retive, surgiu a propósito de um comentário ouvido a Coppola à mesa do pequeno-almoço, e tem a ver com a ideia de que há uma diferença muito grande no modo como europeus e norte-americanos se posicionam em relação à inovação e, modo geral, ao tempo. Concedendo embora que haja muito de cliché nesta ideia, DB ensaia a explicação de que os europeus se projectam sobretudo para o passado porque se vêem como parte de um continuum civilizacional, enquanto os norte-americanos se posicionam numa estreita camada de história e por isso têm uma enorme apetência (que pode atingir a raia a insanidade, diz Byrne) para tudo o que seja novo, para aquilo que ainda não foi experimentado. E é por isso que, sendo uma nação mais selvagem, no sentido de menos civilizada, do que a Europa, os Estados Unidos são uma terra de criatividade e de oportunidades, e um chamariz da imigração.

Para além destes textos a propósito da sua passagem por Portugal, os diários do David Byrne são sempre riquíssima fonte de interesse e estímulo de reflexão. De resto vale a pena dar uma olhadela mais demorada a todo o site e às suas imensas ligações. Dificilmente a Internet consegue ser mais plena de conteúdos relevantes e ao mesmo tempo um exemplo e uma reflexão acerca do seu próprio papel no contexto cultural, artístico e das mentalidades, no mundo e no tempo que são os nossos.