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tu recuerdo y yo
rosas
innersmile
No livro de Arturo Pérez-Reverte que estou a ler, A Rainha do Sul, a personagem principal é uma jovem mexicana viúva do narcotráfico, que se refugia no sul de Espanha e acaba por se tornar a dona do tráfico de haxixe e cocaína que, vindo da América do Sul através de Marrocos, atravessa o estrito de Gibraltar para entrar na Europa.

De vez em quando batem à Mexicana, como é conhecida Teresa Mendoza, umas saudades do México, de Culiacán, no estado de Sinaloa, e do homem cujo assassinato a obrigou a fugir, El Guero D’Ávila, um piloto ao serviço do cartel de Juárez. Num dos capítulos do livro, Teresa está num quarto de hotel da cidade de Jérez a ouvir CDs de José Alfredo Jiménez. Conheci a música de Jiménez através do disco La Cantina, da Lila Downs, que trazia quatro versões de temas daquele que é um dos grandes autores da chamada canção rancheira mexicana.

No trecho do livro de Pérez-Reverte, a Mexicana recorda que o Guero lhe contou que Jiménez morreu bêbado, e que as suas derradeiras canções foram escritas em bares, com as letras anotadas pelos amigos, porque já estava incapaz de as escrever. Às escuras no seu quarto de hotel, Teresa está a ouvir Tu Recuerdo Y Yo, uma das canções de Jiménez que Lila Downs cantou, no CD e num concerto fabuloso dela, a que assisti na Casa da Música, no Porto.

Durante três ou quatro páginas, num momento crucial da narrativa (não são todos?) em que os fantasmas do passado regressam, Teresa vai fazendo um balanço da sua vida, da sua situação actual, e no texto vão aparecendo frases da canção. Termina assim:

«Olhou para cima, para o tecto escuro, e não viu nada. Já me estão servindo o último copo, dizia nesse momento José Alfredo, e ela dizia-o também. Ora… Agora já só lhes peço que toquem outra vez La que se Fue.
Estremeceu novamente. Sobre os lençóis, ao seu lado, estava a fotografia rasgada. Dava muito frio ser livre.»


É fantástico cruzarmo-nos nos livros com coisas, neste caso músicas, que fazem parte da nossa bagagem na vida real. Parece que as narrativas se cruzam, a nossa e a literária, e de algum modo sentimo-nos mais próximos das personagens, quase que nos conseguimos relacionar com elas.

Claro que se impõe pôr aqui um clip com esta rancheira de Jiménez, que é uma das minhas preferidas, e da qual, de resto, já tinha posto aqui a letra (sim, o innersmile é de um tempo pré-YouTube!). Como não consegui decidir qual das versões pôr, se a da Lila Downs se o original de Jiménez, ficam as duas. Escolhi clips só com as músicas. Mas aqui há uma versão ao vivo da Lila e aqui há um clip de um filme com o grande Jose Alfredo.




Estoy en el rincon de una cantina,
oyendo una cancion que yo pedi,
me estan sirviendo ahorita mi tequila,
ya va mi pensamiento rumbo a ti.

Yo se que tu recuerdo es mi desgracia,
y vengo aqui no mas a recordar,
que amargas son las cosas que nos pasan,
cuando hay una mujer que paga mal.

Quien no sabe en esta vida,
la traicion tan conocida,
que nos deja un mal amor,
quien no llega a la cantina,
exigiendo su tequila,
y exigiendo su cancion.

Me estan sirviendo ya la del estribo,
ahorita ya no se si tengo fe,
ahorita solamente ya les pido,
que toque otra vez 'La que se fue'.