?

Log in

No account? Create an account

ao sul
rosas
innersmile
AO SUL

Enquanto esperavam na sala de espera do hospital pela conclusão da operação da mãe, Thomas disse ao seu irmão mais novo que a razão porque tinha saído de casa quase quarenta anos antes, tinha sido para escapar ao controlo manipulador da mãe. Disse-lhe ainda que quando era pequeno o pai lhe batia com um cinto, quando chegava a casa ao fim da tarde e a mãe o atormentava com as queixas das tropelias que Thomas tinha feito ao longo do dia. E que, apesar de não guardar rancor nenhum aos pais por causa dessas sovas, nunca tinha conseguido ultrapassar a revolta que sentia por o pai lhe bater quando esperava com ansiedade o seu regresso do trabalho, e por não conseguir relacionar os castigos com as tropelias que tinha feito de manhã e das quais já se tinha esquecido.

Roger ficou chocado com as revelações do irmão. Sempre pensara que a saída de casa do irmão, com pouco menos de dezassete anos, tinha sido por causa do espírito rebelde e livre, e que não teria nada a ver com problemas familiares. Implorou ao irmão que nunca dissesse à mãe que tinha sido por sua causa que tinha saído de casa, porque isso a iria deixar devastada de desgosto. A verdade é que a mãe sempre lhe tinha dito que o irmão saíra de casa por causa do pai, e que ela não perdoava ao pai o facto de, quando isso aconteceu, eles não terem ido atrás do filho. Mas isto, por qualquer razão, Roger não contou ao irmão.

Dois meses depois desta conversa, Roger chegou num final de tarde a casa dos pais, onde a mãe ainda convalescia da operação, e passava as tardes sentada numa poltrona a resolver problemas de palavras cruzadas. Apesar da idade avançada, da falta de autonomia da mãe e do princípio de senilidade do pai, viviam sozinhos, com a ajuda de uma empregada na parte da manhã, e sem aceitarem sequer discutir a possibilidade de irem para um lar de assistência. O irmão há muito que tinha regressado à pequena cidade de um estado do sul, onde vivia com a sua própria família. Chovia nesse final de tarde, já praticamente não havia luz lá fora, e a sala estava quase às escuras. A mãe estava sentada na sua poltrona, a falar ao telefone, e o pai resolvia paciências de cartas num velho computador que servia apenas para esse efeito.

Mal Roger entrou em casa a mãe desligou o telefone e começou a fazer queixas do pai, das coisas que ele lhe tinha feito ao longo dia, das que não tinha feito e devia ter feito, das discussões que travaram, do seu mau feitio e dos maus modos. Falava de uma forma não exaltada, tranquila mas entristecida, e quase sem pausas. O pai interrompia os seus jogos para dizer que não percebia porque é que ela passava o dia ao telefone e que não teria dinheiro para pagar a conta da companhia. Repetia isto, quase a mesma frase, com as mesmas palavras, vezes e vezes sem conta. Roger tentava manter-se calmo e até um pouco alheado da discussão, voltando, quase sem as ler, as páginas de um jornal do dia.

Mais tarde, Roger, sozinho na cela, lembrou-se da conversa que tinha tido com o irmão na sala de espera do hospital no dia da operação. Mas nesse final de tarde a única coisa que sentiu, quase como quando ouvimos um comboio a aproximar-se pela linha quando estamos à espera na guarda de uma passagem de nível, foi uma fúria enorme e explosiva a crescer dentro de si.
Tags: