November 9th, 2009

rosas

mec

O Miguel Esteves Cardoso não é meu Papa nem guru. Mas, para que não haja peneiras, já foi. Há muito tempo, muito muito tempo, algumas das maneiras que aprendi de olhar o mundo, e sobretudo de o ouvir, foi com o MEC. Antes da internet, do Pastilhas, antes até do Independente, e mesmo antes da K, e dos livros. No tempo em que aprendíamos a ler os jornais e a ouvir a rádio. O tempo do Se7e, do Expresso, da Rádio Comercial.

Talvez aquela máxima de que não devemos regressar aos lugares onde fomos felizes também se aplique aqui. Não me cansei de ler o MEC, nem de o ouvir, mas como que me desabituei. Durante muitos anos não soube nada dele, não lia o que escrevia, nem sabia onde, e desabituei-me. Há tempos ele foi voltando aos meus hábitos quotidianos, através da crónica que assina diariamente no Público. Curiosamente, embora já não o lendo com a atenção de antes, muito menos com a devoção de antes, fui ocupando com as suas crónicas aquele lugar que estava vazio desde que Eduardo Prado Coelho morreu, e com ele as crónicas diárias O Fio do Horizonte. Não leio todos os dias, mas dou-lhe quase sempre uma chance de me arrebatar, de me surpreender, de me ensinar. Muitas vezes nem é a crónica inteira, basta um parágrafo, uma frase.

Mas hoje o Miguel Esteves Cardoso voltou a extasiar-me, como nesses tempos de antigamente, em que era meu mestre e guru. Bastou isto:

«O sonho de escrever é tornar em letras aquilo que só se sente quando se tenta tornar em letras aquilo que se sente ou imagina. Não porque se sente ou imagina, mas por querermos achar em nós próprios algumas coisas que dêem para tornar em palavras.»