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três cantos (coliseu do porto)
rosas
innersmile
A porta estava quase a fechar-se, mas mesmo assim consegui um bilhete para o último dos quatro concertos com que José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto decidiram celebrar, celebrando-se, as respectivas carreiras. E se um certo revival revolucionário (que em alguns momentos teve tons de êxtase bloquista) não foi propriamente o mais interessante da sessão, teve, apesar disso, o condão de criar um clima especial que elevou à potência as emoções que ajudaram a fazer este que será, sem dúvida, um concerto memorável em todos os que tiveram a sorte de assistir e participar.

O melhor, então, foi mesmo a música, e os músicos. Fausto, Sérgio e Zé Mário estão velhos, isso nota-se, e ainda bem. Primeiro porque têm um reportório imenso, feito não só de belíssimas canções, mas mesmo de algumas obras-primas. Depois porque têm muita experiência de criar projectos musicais interessantes e desafiadores, rodeando-se de bons músicos, e aprofundando e explorando os caminhos da música popular. Finalmente porque sabem do público, sabem estar no palco a servir e a governar, têm a confiança, mas também o respeito pelo público que os obriga a serem sempre exigentes.

Se o Sérgio Godinho é o escritor de algumas das mais extraordinárias canções da música popular, e muitas delas integram a nossa história e a nossa memória pessoal, se o Fausto é um talento a compor e a escrever, e ainda por cima toca muito bem viola, e ainda por cima tem um timbre de voz que é sempre espantosamente bonito, cabe, apesar de tudo isso, e apesar de este projecto ser rigorosamente a três, um destaque para o José Mário Branco. Pelo entusiasmo, que se notava e transbordava, pela maneira talentosa como personaliza as interpretações das canções alheias, mas sobretudo pelo seu génio musical, pelo arranjador e produtor que é sempre e acima de tudo, pelo rigor da exigência, por vezes mesmo um pouco estóico, mas que nunca rouba o prazer e a alegria de cantar.

As palavras gastam-se e muitas vezes diluem-se na banalidade do lugar-comum. Mas este concerto dos Três Cantos, para além de único e raro, foi verdadeiramente uma daquelas ocasiões especiais em que, ao assistir, temos a plena consciência, e a emoção intensa, de estar a construir a memória do futuro.
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