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so what
rosas
innersmile
Volto a ouvir Kind of Blues, pelo Miles Davis, e penso num rosto para Coy. Vou à net procurar o rosto que Imanol Uribe escolheu para o filme que fez com a história de Pérez-Reverte. É o de Carmelo Gómez, e ainda que me pareça uma escolha muito acertada, não é a minha. E então numa tarde, num final de tarde, encontro-o. Encontro aquele que desde esse momento tem sido o rosto, o corpo, a figura, a sombra, a silhueta, de Coy. Na piscina, nado sem parar durante quarenta e cinco minutos, e todo esse tempo penso no livro, em Coy, tento imaginá-lo como pessoa real, e não como mera personagem literária, como seria conhecê-lo, como é que um tipo totalmente gauche, como eu, seria capaz de se relacionar com um tipo como Coy, para quem a vida é o que é.

Vou lendo as derradeiras páginas do livro. Não é como se estivesse obcecado e não conseguisse parar de ler. Não é uma coisa compulsiva. É sobretudo estar sob influência. Pego no livro, começo a lê-lo e parece que tudo à minha volta desaparece e eu entro num estado de espírito muito particular. Uma atmosfera. Estou aqui sentado à mesa, a escrever no computador, e olho para o sofá, em cujo braço está o livro, de capa voltada para cima, à minha espera. E sinto uma urgência (a que não falta uma ponta de mau-estar) em lhe pegar e entrar nessa atmosfera. Não que o livro seja mais verosímil do que outros, não é como naqueles casos em que dizemos que um livro parece real. Mas é como que uma esperança de que o livro se torne realidade, que de tanto o ler, e com tanta intensidade, eu consiga entrar no livro. Uma vontade muito grande de que Coy seja verdadeiro, e ler o livro, estar a lê-lo, aumenta as hipóteses de isso acontecer.