October 20th, 2009

rosas

a comedy tonight

Aproveitei este fim de semana para rever dois filmes antigos, que já tinha visto há muitos anos (mesmo muitos), mas dos quais a minha memória era mais mítica do que factual. Ou seja, lembrava-me de que tinha gostado muito de ambos, mas já não me lembrava porquê. Têm em comum o facto de serem comédias, e de serem produtos dos anos 60, uma época em que os estúdios claramente tentavam a estratégia de the bigger the better para manter o público nas salas. Ah, e também têm em comum os títulos compridos: um, It's a Mad Mad Mad Mad World, o outro, A Funny Thing Happened On The Way The The Forum.

Lembro-me de que que vi It's a Mad Mad Mad Mad World no cinema, em ecrã de 70 mm., numas sessões memoráveis que o Gil Vicente fazia sempre no mês de Setembro, para assinalar o reinício da actividade (numa altura em que em raros os espectáculos, e o Gil funcionava quase exclusivamente como sala de cinema). É um típico filme de produtor, Stanley Kramer, que neste caso também realizou, e é uma daquelas comédias slapstick, em que vale tudo, que parecem estar sempre a caminhar para o caos e para a destruição. Mas sendo um filme típico de produtor, não é um filme muito típico de Stanley Kramer, que é mais conhecido por fazer filmes, não digo politicos, mas com algum tipo de preocupação social. Isto apesar de a história do filme poder ser lida como uma parábola sobre a ambição cega e desmedida pelo dinheiro fácil. De resto, um dos filmes que fez a seguir a este foi Guess Who's Coming To Dinner, de que já falei aqui, e que é um filme que põe o dedo na ferida do racismo entre as classes mais liberais da sociedade americana. Um dos sinais do respeito que Hollywood tinha por Kramer vê-se, de resto, no facto de estes dois serem os dois últimos filmes feitos por esse monstro sagradíssimo que era o Spencer Tracy, e que em It's Mad Mad... dá mostras do gozo que lhe estava a dar este papel de um chefe da polícia, sério e honrado, bom pai de família, que não resiste a tentar deitar a mão à, literalmente, mala do dinheiro. Apesar de ser um bocado comprido demais, e de algumas cenas de destruição do cenário serem mais do mesmo, o clima de loucura, as perseguições de automóveis e o trabalho dos duplos, e mesmo uma certa concepção de cinema que estava subjacente a este tipo de filmes, nomeadamente no que se refere à comédia como género nobre do cinema clássico norte-americano, tudo são razões para ver e rever It's a Mad Mad Mad Mad World com prazer.

Quanto a A Funny Thing Happened On The Way The The Forum, as coisas são um pouco diferentes. Trata-se de uma comédia, é certo, mas uma comédia musical, um filme que adapta um exito da Broadway, e que tem nas canções de Stephen Sondheim um dos seus argumentos mais imbatíveis. E que são também o melhor do filme, não porque ele seja mau, mas porque são verdadeiros clássicos da escrita de canções para o teatro musical. Sondheim é um génio, e um dia vai ter o reconhecimento que merece. Fora, é claro, dos círculos especializados da Broadway e do West End, onde é sempre um dos maiores entre os maiores. O filme vive então das excelentes canções, e do tom de comédia de enganos, da farsa de costumes. O resultado é uma espécie de cross-over entre a genialidade do S. Sondheim e o tom destravado e malandro das comédias do Mel Brooks. Para o qual contribui a presença do Zero Mostel, actor mais de teatro do que de cinema, e que participaou na versão original de The Producers, do Mel Brooks, no papel de Max Bialystock. Outro aspecto curioso do casting do filme é a presença do grande Buster Keaton, herói da história do cinema e estrela da comédia sem palavras, naquela que seria o seu derradeiro papel. Só mais uma nota: o realizador é Richard Lester, nome importante do cinema, particularmente nos anos 60, em que assinou a realização de dois filmes dos Beatles, o Help e o Hard Day's Night.