October 19th, 2009

rosas

a pele do tambor



Primeiro há Lorenzo Quart, o padre enviado de Roma para saber o que se passa em torno da igreja de Nossa Senhora das Lágrimas. E há mais dois padres, Príamo Ferro, o velho cura que se defende a golpes de mau feitio, apaixonado pela astronomia, e o seu jovem acólito, Óscar Lobato, que vai ser transferido por castigo. E Gris Marsala, a freira americana, arquitecta dos andaimes.

E há Macarena Bruner, a duquesa jovem de olhos cor de mel, que guarda o isqueiro na alça do soutien. E Maria Cruz, a velha duquesa, sua mãe, que bebe Coca-Cola de garrafa, a de lata não sabe à mesma coisa, nem os piquinhos são iguais.

Há os banqueiros. Machuco, Don Octávio como é tratado, que passa os dias a despachar na esplanada. Pencho Gavira, jovem e ambicioso, cuja Vice-Presidência está sob prova de fogo. E como cada criado quer o seu criadito, há Celestino Peregil, o seu homem de mão, sempre ajeitando o capachinho.

Há três outros que se passeiam pela cidade como se fossem anjos de pedra. Don Ibrahim, o meu preferido de todos, exilado cubano, advogado não documentado, sempre de fato branco, chapéu de aba larga e a brasa de um Montecristo a incendiar-se nos lábios. O isqueiro foi uma prenda de Garcia Marquez, o relógio ganhou-o numa noite de póquer a Hemingway, e El Che ensinou-o a fazer cocktails molotov. Acompanham-no Piña Puñales, cantora desvalida de boleros e sevilhanas, caracol desenhado na testa e o crochet enfiado na carteira, e o Potro del Mantelete, ex-toureiro e ex-pugilista, homem de acção, duro e impassível.

Há ainda Carlota e Manuel Xaloc, uma duquesa louca e um pirata das Caraíbas, fantasmas que se buscam um ao outro (“Mi carta, que es feliz, pues va a buscaros”).

Há um hacker, Vésperas, que deixa mensagens no computador pessoal do Santo Padre.

É há Sevilha, cheia de luz e de sol, cheia de noite e de tascas, cheia de igrejas, de praças e de pátios, perfumada de laranjas. “Como nenhuma outra, aquela cidade conservava na esquina das ruas, nas cores e na luz, o rumor do tempo que se extingue lentamente, ou melhor, de nós próprios extinguindo-nos com aquelas coisas do tempo a que se apegam a vida e a memória.”

Há, de Arturo Pérez-Reverte, A PELE DO TAMBOR.