October 15th, 2009

rosas

joão paulo borges coelho

Normalmente não ligo muito a prémios e coisas do género (ok, tirando os Óscares, que curto mesmo). A minha consideração por alguém não se move um milímetro em função de um prémio recebido ou negado. A recente atribuição do prémio Nobel ao Obama deixou-me indiferente, e não vou a correr ler os livros dos premiados com o Nobel da literatura (mas fiquei feliz quando o Saramago recebeu o dele).

Mas estou muito contente com a atribuição do prémio Leya (que não sei bem o que é, mas suponho que seja atribuído pelo grupo editorial daquele senhor que tinha a TVI antigamente) ao escritor João Paulo Borges Coelho. Apesar de ter nascido no Porto, Borges Coelho é um escritor moçambicano (e também historiador) de quem li todos menos um dos seus livros (falta-me Campo de Trânsito, que tenho em casa, mas ainda não li). Um dos seus livros, As Visitas do Dr. Valdez, devia ser de leitura obrigatória para quem queira perceber o que foi o fim da presença colonial portuguesa em Moçambique, pelo menos na sua geografia afectiva. Outros livros do escritor são o inaugural As Duas Sombras do Rio, passado na guerra civil (tema muito presente na obra do escritor, ou não fosse um dos seus temas enquanto investigador), as colectâneas de contos Setentrião e Meridião, a Crónica da Rua 513.2 e Hinyambaan.

Como sou grande fã da obra do JPBC, são inúmeras as referências que lhe tenho feito aqui no livejournal, e também muitos os excertos que coloquei no blog À Sombra dos Palmares. Apesar de nem sempre o ritmo narrativo ser constante, nos seus melhores momentos, e são muitos, a prosa do JPBC é magnífica, nomeadamente pelas descrições poderosas e evocativas, pelo modo como capta ambientes e vivências, e sobretudo pela maneira como parece conseguir revelar o essencial da maneira de ser de um povo e da sua cultura.

Gostava muito que este prémio constituísse o pretexto e a oportunidade de trazer a obra e a escrita do JPBC para a primeira linha da literatura escrita em português, que o desse a descobrir ao Brasil, que tornasse mais acessíveis as suas obras, nomeadamente no seu próprio país, que o consagrasse, não no sentido institucional, mas no de que o tornasse um escritor lido por mais gente. E mais acessível, que muitas vezes me vi aflito para encontrar os seus livros, de cuja existência sabia nomeadamente através da Internet, mas que nem o facto de ser editado por uma das maiores editoras nacionais, os tornavam mais disponíveis nas livrarias. Por mim, o que espero deste prémio é sobretudo que ele torne possível deitar rapidamente a mão à obra premiada, O Olho de Hertzog.