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o mestre de esgrima
rosas
innersmile


Mão amiga disponibilizou-me uma pilha de quatro livros de Arturo Pérez-Reverte, um escritor que é, como me disseram, para reforçar a minha ignorância, “um dos nomes mais importantes da moderna literatura espanhola”. Tenho em casa muitos livros para ler, e com muita vontade de os ler, mas decidi-me então atacar o espanhol.

Comecei por O Mestre de esgrima, uma história passada na Madrid da segunda metade do século XIX, e que junta, em doses homeopáticas, intriga política, amorosa e policial. E o resultado é fantástico, sobretudo porque a escrita é um exercício de elegância e destreza (sim, como a esgrima). Um aspecto que joga muito a favor é a tradução ser absolutamente esplendorosa, e não roubar um milímetro que seja do gozo que desfrutar uma prosa muito bem arquitectada. Gostei tanto da escrita de Pérez-Reverte, que mal terminei a leitura do livro comecei logo a de outro.
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a cuspidela
rosas
innersmile
Eu sei que esta já é quase uma last week news, mas mesmo assim não quero deixar de dizer que o que mais me surpreendeu no caso do vídeo da Maité Proença para o programa saia Justa, foi a reacção dos portugueses. Primeiro, e para tirar já isto do caminho, dei uma espreitadela aos comentários do blog dela e a única coisa que senti foi vergonha pelo nível dos comentários. A sério, devia ser estudada pelos psicólogos e outros entendidos esta necessidade de os portugueses serem inacreditavelmente primários e grosseiros no anonimato das caixas de comentários de blogs e jornais.

Quanto ao vídeo da Maité, blimey!, aquilo é uma reportagem tola, de brincadeira, sem interesse nenhum, palerma, mas, caramba, igual a tantas outras que passam na TV. Agora não acho nada daquilo grave ao ponto de suscitar uma reacção tão encarniçada por parte dos portugueses, quase ao nível do crime de lesa-pátria e do incidente diplomático. Para dizer a verdade, na minha opinião há nesta história três coisas interessantes, a merecerem reparo e reflexão.

A primeira é que a reportagem que a Maité Proença faz em Portugal é o protótipo do entretenimento televisivo: leve, tonto, superficial, pseudo-divertido, suportado mais no estatuto da celebridade do que no conteúdo da mensagem. É assim em Portugal, e pelos vistos também é assim no Brasil. Há pouco tempo tivemos um exemplo claro disso por cá: a rapariga que foi a mandatária de Sócrates na última campanha eleitoral legislativa tinha feito um programa de TV em que dizia inanidades sem interesse nenhum, e ninguém ligou nenhuma. Quando deu jeito para a diatribe, lá se foram desenterrar as imagens e caiu tudo em cima da rapariga, só, é claro, para se atingir o Sócrates. Faço-me entender? O espaço televisivo é ocupado com palermices, inanidades, gossip cretino, celebridades a la minuta, enfim o grau zero da cultura e do entretenimento, e ninguém cerra um sobrolho. De vez em quando, porque dá jeito ou nos cai na fraqueza, desatamos todos a usar esse grau zero para a traulitada.

Segundo, esta coisa bem portuguesa de nós podermos dizer o pior acerca de nós próprios mas ai de quem se atreva a dizer mal de nós. A Maité, se bem percebi o alcance da coisa, pôs-se ao lado de uma gárgula que cospe água para uma fonte dos Jerónimos, e tentou imitá-la. É totó? É sim senhor. A Maité cuspiu com desprezo num símbolo da pátria lusa? Não, valha-me deus, coitada da rapariga. Faz-me impressão esta fragilidade patriótica emocional, que nos faz ficar irados porque alguém foi palerma a falar de coisas portuguesas. A reacção ofendida, o orgulho ferido, o ódio contra a rapariga, tudo isso me parece tão desproporcionado. Caraças, sentimo-nos ofendidos porque alguém manda uns bitaites idiotas acerca de coisas sem importância como os pastéis de Belém ou a perícia informática dos porteiros dos hotéis? É humilhante a Maité disparatar, coitada, que os portugueses nunca viram um rato de computador e não sabem como se escreve o algarismo três?

O terceiro aspecto interessante é também o mais perturbador dos três: o que este episódio revela é que, apesar de tudo, a relação entre portugueses e brasileiros continua a ser edificada no desconhecimento e na desconfiança mútuas e, portanto, nos preconceitos e nas ideias feitas. Como sempre acontece com a xenofobia, detestamo-nos mutuamente em geral, mas salvaguardamos sempre os casos particulares. Não me lixem, os portugueses têm sentimentos xenófobos em relação aos brasileiros, e sempre que aparece uma brasileira tresloucada a dizer umas palermices acerca dos portugueses, também elas baseadas em preconceitos e ideias feitas, vêm ao de cima esses sentimentos que, na maior parte do tempo, escondemos mais pelo sentido das conveniências, pelo parece mal, do que por qualquer outra razão.

Não é grave percebermos os outros, o estrangeiro, através do estereótipo. Aliás, até é simplificador: usamos o cliché como a forma mais imediata de percepção do outro. O que já é menos compreensível é não só ficarmos reféns desses estereótipos, como nos refugiarmos neles de cada vez que nos sentimos atacados ou sequer desamparados. Brasileiros e portugueses já se conhecem há tempo suficiente para se conseguirem ver uns aos outros para lá das ideias feitas e dos preconceitos. Para falar com franqueza, a Maité Proença nunca teve um lugar na minha vida. E não há-de ser por isto que vai passar a ter. Por mim, pode continuar a vir cá as vezes que quiser. É-me rigorosamente igual.
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