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district 9
rosas
innersmile
A melhor qualidade de District 9, o filme sul-africano de ficção científica que tem estado a deliciar público e crítica, é ter uma boa história para contar e contá-la bem. É sobretudo um filme feito com contenção e inteligência. Que começa logo no facto de os efeitos especiais estarem ao serviço da história e não o contrário, como tantas vezes acontece. O mesmo em relação à acção (as cenas de pancadaria e tiroteio), que é muita mas nunca se torna um fim em si mesma. Outro tanto para a parábola socio-política que o filme encerra e que parece estar na sua génese.

Ou seja, o filme tem todos estes elementos, mas todos eles se submetem à lógica e à economia da história que o filme quer contar, e é isso, essa narrativa sempre justa e apertada, sem folgas, sem gordura, que dão sentido a duas horas bem passadas.

Por tudo isto trata-se na realidade de um filme surpreendente. E por ser uma absoluta surpresa, para mais vinda de uma cinematografia que, pelo menos para nós, é rara. E ainda mais por ser um reflexo tão preciso de algumas das questões fulcrais no mundo actual, como sejam a amplificação mediática, a banalização da pobreza em massa, ou a transferência de responsabilidades colectivas para a lógica empresarial.
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stephen gately
rosas
innersmile
Entre 1984 e 2003 fui a Londres praticamente todos os anos, e ao princípio fui até mais do que uma vez por ano. Em Setembro de 2003 fui lá mais uma vez, e desde então nunca mais voltei. Eu que pensava não podia viver sem a visita anual a Londres, fui-me aos poucos habituando à ausência, não digo da cidade, mas dos meus percursos e dos meus lugares em Londres, do estímulo que eles me davam, do que me ajudavam a estruturar a minha cabeça e o meu espírito.

Nessa minha última visita a Londres, fartei-me de ver coisas (como se pode haver pelas entradas aqui no livejournal dessa época). Entre elas, fui ver Joseph and The Amazing Technicolor Dreamcoat, o primeiro musical da dupla Lloyd Webber-Tim Rice, no New London Theatre, em Drury Lane. Eu já conhecia o New London, pois foi o teatro onde, durante mais de duas décadas, esteve o Cats, e como não sou grande fã dos musicais de Lloyd Webber, confesso que a principal razão que me levou a Drury Lane era mesmo a possibilidade de ver o Stephen Gately ao vivo, um dos cantores da boysband Boyzone, a fazer o protagonista da peça. Com tanto azar, que na sessão a que assisti, o protagonista foi assegurado pelo substituto do Stephen Gately, uma prática que é frequente nos espectáculos do West End. Quando queremos ter a certeza de que um espectáculo é com determinado actor, convém confirmar sempre na bilheteira, e mesmo assim nem sempre essa informação está disponível, corre-se sempre o risco de o espectáculo ser assegurado por um substituto.

Não é que eu fosse propriamente um admirador de boysbands, mas sempre achei piada aos Boyzone. Primeiro porque eram irlandeses, e eu nos anos 90 atravessei uma fase muito irlandesa, em que amava all things irish. Depois porque os rapazes tinham umas canções, enfim, engraçaditas, e faziam umas versões giras. E também, claro, porque eram todos muito engraçados, tinham um certo ar reguila, que lhes vinha da Irlanda. No final dos anos 90, então, passei a gostar ainda mais dos Boyzone, não por causa das canções, valha-me deus, mas porque o Stephen Gately, provocado creio que pelo The Sun, assumiu a sua homossexualidade, e a relação que mantinha com um tipo de outra boysband qualquer.

Eu achei aquilo o máximo, um tipo ligado a um fenómeno pop que vive essencialmente da imagem e do poder de adesão que essa imagem é capaz de suscitar nas rapariguinhas pré púberes, provar aquilo que todos sabemos, ou seja, que a pop, na grande maioria dos casos, não passa de um processo de criação de um produto que seja competitivo num mercado altamente concorrencial. Mas o que mais me fascinou foi uma certa perversidade nesta história, um tipo que vive das palpitações mais ou menos eróticas que é capaz de suscitar nas rapariguinhas afinal realizar-se afectiva e sexualmente com outros homens.

Depois do final, ou da interrupção, da carreira dos Boyzone, como é típico nestes casos, o SG ainda tentou uma carreira a solo, à semelhança do que fizeram, apesar de tudo com mais sucesso, outros colegas da banda. A coisa não pegou, e depois da passagem pelos musicais do West End (no Joseph e, no ano seguinte, no Chitty Chitty Bang Bang), deixei de ouvir falar nele. Até à tentativa de relançamento dos Boyzone, que fizeram, ou estão a fazer, uma digressão no Reino Unido. E até, no fim de semana passado, aparecerem notícias, sem grande destaque mediático, de que o Stephen Gately morreu durante a noite, num resort nas Baleares onde passava férias com o seu cônjuge.

Não posso dizer que tenha ficado devastado, mas fiquei triste. Pelo desperdício de uma vida tão jovem, é claro, mas sobretudo por mim, pela sensação de perda que sempre provoca o desaparecimento de alguém em relação a quem sentimos, ainda que de forma ligeira e distante, alguma ligação sentimental. Para lembrar e homenagear o Stephen Gately, aqui fica o clip de uma das canções mais conhecidas dos Boyzone, cantada por ele, e que era uma das minhas favoritas.



Esta canção foi escrita pelo Andrew Lloyd Webber para um musical. Tem letra do Jim Steinman, que foi o letrista e o produtor responsável pelos momentos mais espectaculares da carreira do Meat Loaf, nomeadamente por esse álbum inesquecível que foi o Bat Out of Hell. Eu tenho uma pancada imensa pelo Meat Loaf e por esse disco de 1977, que foi tão marcante para mim. Li algures que o Meat Loaf também tinha gravado uma versão do No Matter What, o que, atendendo à sua ligação ao Jim Steinman, era mais do que previsível. Como no YouTube se encontra tudo, aqui vai um clip com a versão do Meat Loaf. Não é bem para comparar, até porque nada se compara à capacidade do Meat Loaf de fazer teatro com a voz. Uma delícia.