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caderno afegão
rosas
innersmile


Aproveitei o fim de semana grande para ler o Caderno Afegão, escrito pela Alexandra Lucas Coelho, e que relata a estadia da jornalista, ao serviço do Público e da Antena 1, durante um mês no Afeganistão. Misto de grande reportagem (de resto o texto incorpora algumas das reportagens publicadas pelo jornal) e de relato de viagens, escrito sobre a forma de diário, o livro é sempre mais interessante quando se afasta do distanciamento jornalístico e ganha a proximidade das vivências, dos encontros, das peripécias e das impressões. Tudo, claro, servido pela escrita admirável da ALC, que é uma das poucas grandes repórteres da imprensa portuguesa, e ainda das mais raras que escreve bem, com sentido literário. Aliás, seja na grande reportagem ou no jornalismo cultural, a ALC é das poucas jornalistas que ainda fazem valer a pena passar os olhos pela imprensa na sua versão impressa, pois os seus textos longos precisam do toque do papel de jornal para serem bem apreciados.

Uma das mais valias do livro é ele tomar sempre uma perspectiva feminina. Fazendo-o sempre com subtileza, mas com determinação, o livro presta particular atenção à condição das mulheres na sociedade afegã, à degradação e ao sofrimento a que são sujeitas, numa sociedade que é forte e violentamente patriarcal. Além disso a ALC nunca se exime a colocar-se a si própria no centro da questão, ora partilhando encontros e experiências que são as das mulheres, ora avançando, enquanto jornalista mulher, nos centros de poder que são quase sempre exclusivamente masculinos.

O Afeganistão é um país difícil, um dos países que no Ocidente nos habituámos a odiar, dilacerado por uma violência sem limites, cruel, marcado pelo fundamentalismo religioso e por uma cultura de corrupção e tráfico, assente no cultivo da papoila para produção de heroína. E sem nunca dourar a pílula, antes pelo contrário, o feito mais notável da Alexandra Lucas Coelho é fazer-nos chegar ao fim deste livro admirável com vontade de conhecer o país e o seu povo, de partilhar as aventuras e até os desânimos da autora, de perceber o que resta de fulgor no olhar duro dos homens e que mistérios fantásticos se escondem por debaixo das burqas das mulheres. O que este Caderno Afegão nos dá é essa coisa inesperada e humana de perceber que há um país Afeganistão e um povo afegão, que não se esgotam no fundamentalismo dos taliban, no terrorismo islâmico, na corrupção do poder e da guerra, ou nos interesses do tráfico.