October 1st, 2009

rosas

cem anos

Vou à procura de entradas antigas aqui do meu diário, e outras mais antigas ainda, de quando o diário era apenas meu, escrito em cadernos ou em ficheiros de computador. Encontro referências, não muitas, mas as que encontro reconfortam-me. Sei que há outras, onde as referências são mais subtis. A minha avó morreu fez dezasseis anos em Abril, mas de facto não morreu, nem morrerá enquanto a minha mãe e as minhas tias, enquanto eu, e suponho que os meus primos, nos continuarmos a lembrar dela. Quase todos os dias. Hoje, por exemplo. 1 de Outubro, era dia do seu aniversário. Talvez o facto de ela continuar tão presente na nossa memória, e nos nossos sentimentos, seja razão para celebrar. Entristece-me um pouco pensar que devo ser da última geração da família que se lembra de que hoje era o dia de anos da avó. Acho que uma boa razão para eu viver mais uns anos é esse dia poder continuar a ser recordado e assinalado. Tenho-me lembrado muito da minha avó nestes últimos tempos. Lembro-me sobretudo de coisas boas, boas recordações, dos traços do seu carácter que nos marcaram tanto e nos fazem recordá-la sempre. Mas também me tenho lembrado muito do dia em que cheguei a casa e a encontrei deitada no chão. Estava sozinha em casa, caiu, e não se conseguiu levantar. Perdeu a noção do tempo, não fazia ideia há quanto tempo estava caída no chão. E tenho-me lembrado muito disso porque a angústia que me provocou a queda da minha mãe faz-me pensar na agústia, na aflição, que ela sentiu por estar ali caída tanto tempo. De repente, apetece-me acreditar em anjos e no poder reconfortante dessa crença. Muitas vezes revejo a minha avó na minha mãe. São gestos, atitudes, comportamentos, reacções. São sobretudo os traços do envelhecimento. O envelhecimento da minha mãe às vezes parece um palimpsesto do envelhecimento da minha avó. Como quando éramos pequenos e desenhávamos em papel vegetal por cima de outros desenhos. Aquele desenho já era nosso, mas como que guardava a perfeição do desenho original. Comove-me muito, o amor da minha mãe trazer-me o amor da minha avó.
A minha avó, a única avó que eu conheci e tive, nasceu no dia 1 de Outubro de 1909, faz hoje cem anos.