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o dia seguinte
rosas
innersmile
A coisa mais admirável da democracia, talvez a única em que a democracia seja um sistema político perfeito, é o facto de nas eleições o povo ter sempre razão. Não foge à regra: olha-se para o resultado das eleições e ele é clarinho, tudo faz sentido.

Há quatro anos o povo deu uma maioria absoluta ao PS e a Sócrates. Não nos podemos esquecer das circunstâncias em que isso aconteceu: o país estava de pantanas, Santana Lopes era um pesadelo de irresponsabilidade enquanto primeiro-ministro, um homem que confundia o país (ou mesmo o mundo) com uma secção partidária que ele, juntamente com a sua facção, tinha tomado de assalto. O povo foi sábio e deu a Sócrates um mandato de 4 anos, em maioria absoluta, para tirar o país do pântano e poder governar sem desculpas.

Agora Sócrates já teve oportunidade de mostrar o que vale e o povo tornou a ser sábio: uma vitória folgada, sem margem para dúvidas, mas que terá de ser ganha no parlamento e no dia-a-dia da governação. Os resultados à direita também parecem ser claros na sua expressão: o PSD não fez nada para conquistar os eleitores, e por isso houve transferência de votos para o CDS que, mau grado a minha embirração com o Portas, protagonizou de facto a única oposição de direita ao governo. O único resultado de que não gostei foi o do Bloco de Esquerda, que, pelas ideias que defende, tem mais expressão eleitoral do que aquela que faria sentido num país como o nosso. Das duas uma, ou o BE é um enorme equívoco, e os eleitores terão de dar por isso, ou o BE irá substituir cada vez mais o PCP enquanto força política da esquerda comunista, empurrando o PC para o nicho dos seus incondicionais.

ghost train
ghostrain
innersmile
No dia 28 de Agosto, uma sexta-feira, cheguei a seguir ao almoço a um hotel muito simpático, em Mira, para passar o fim de semana. Registei-me, fui ao quarto pousar o saco e mudar de roupa, e vim deitar-me à beira da piscina, à sombra dos pinheiros. Abri o livro e comecei a ler Ghost Train to The Eastern Star, do Paul Theroux, e do qual já falei aqui várias vezes. Ontem à noite ainda acompanhei a noite eleitoral, mas como agora o suspense dos resultados termina cedo e depois é aquela espuma dos comentadores e dos comentadeiros, e depois de dar uma espreitadela ao programa Camara Clara que ontem tinha dois convidados irresistíveis (o Richard Zimler e o João Paulo Esteves da Silva, sendo o mote do programa o concerto da Anne Sofie von Otter sobre as canções de Theresienstadt), li finalmente as últimas páginas do livro.

Demorei um mês a terminá-lo, mas foi um mês muito complicado, e este livro, como também já referi, vai ficar para sempre ligado à memória destes dias. Uma das razões porque demorei tanto tempo a terminar a leitura (para além de eu ser um slow reader) tem a ver, é claro, com a falta de tempo: os fim de semana, que é quando leio mais, passei-os fora de casa, e à noite, estava sempre tão cansado e ensonado, que adormecia ao fim de uma página e meia. Mas teve um aspecto positivo, esta leitura demorada, que foi o livro fazer-me companhia ao longo de todas estas semanas, ser assim uma espécie de porto da tranquilidade para onde me apetecia fugir quando o sobressalto era maior, e que me deu momentos de prazer no meio de toda a perturbação.

O poeta é um fingidor, como diz o poema, e o escritor de livros de viagens também. Não sei se as histórias que o Paul Theroux conta se passaram mesmo assim como ele as relata, e muitas vezes tive a impressão de que não. Além de que é conhecida (ok, 'conhecida', quando se fala de literatura, se calhar é uma expressão forte demais) uma certa propensão para o exagero, quando não mesmo para a ficção pura. É célebre (lá está...) o relato de um jantar que Theroux e a sua mulher deram a V.S. Naipaul, e que todos os intervenientes, a começar pela mulher, vieram dizer que não se tinha passado bem assim. Mas mesmo que haja muita coisa que Theroux pinta, ainda assim os seus livros de viagens são uma aventura deliciosa, e a companhia do escritor, as suas observações, a sua capacidade para descrever ambientes, os encontros e os diálogos (nomeadamente com outros escritores), torna-se quase viciante.