September 13th, 2009

rosas

como ela é

O innersmile é um diário pessoal, que numas fases funciona como um bloco de notas, um caderno de apontamentos, e noutras é mais íntimo, mais sobre as pessoas, os sentimentos, as coisas, que me tocam mais de perto e emocionam. Mas nunca é, ou será apenas muito excepcionalmente, um diário confessional, em que venho despejar gritos de alma. Mesmo quando aqui ponho textos mais pessoais e íntimos, mesmo privados, eles são sempre mediatizados pelo próprio acto da escrita. Ao escrever sobre eles ganho distância e perspectiva, e apenas os ponho aqui quando os consigo ler sem qualquer transtorno ou perturbação. Nunca, ou tão raramente que não me lembro, um texto que aqui ponho corresponde exactamente ao pulsar da veia no meu pulso. Quando muito, é já apenas o seu eco.

Um diário assim público, por muito verdadeiro e sincero que pareça, é sempre uma coisa outra da realidade. A realidade, a vida, a cores e como ela é, corre sempre lá fora, nas horas em que não estou sentado à frente do computador. Estas, as horas em que estou a escrever ou a brincar no innersmile, são sempre horas de ócio, de prazer, de brincadeira. E às vezes a vida tal como ela é, é tão avassaladora que estas horas de imitação parecem ser, já nem inúteis, mas mesmo despudoradas.

Durante estes últimos dias os sentimentos e as emoções que têm dado rosto à minha vida têm sido tão intensos, que tornavam impossível vir aqui pôr textos banais, resultado das tais horas de brincadeira. Por outro lado tem sido igualmente impossível vir aqui escrever sobre isso. Porque têm sido roubados os instantes de sossego, e ainda mais aqueles em que consigo sequer ligar o computador. Mas sobretudo porque não parecia fazer sentido nenhum sentar-me a escrever sobre o turbilhão que me envolvia. Hoje, pela primeira vez em seis dias, estou sozinho, e sobretudo tranquilo o tempo necessário e suficiente para me sentar a escrever. A tentar olhar a vida, não como ela é, mas como se fosse uma história.

Terça-feira, dia 8 de Setembro, depois do almoço, a minha mãe fechou a porta do frigorífico e rodou sobre o lado esquerdo para regressar à banca da cozinha. Caiu desamparada e sentiu dores tão lancinantes que soube logo que os efeitos da queda eram sérios. Pediu o telemóvel ao meu pai e ligou para o 112. Depois chamou-me para o emprego. Durante mais de uma hora a equipa de emergência tentou imobilizá-la e fazê-la descer do quinto andar onde mora. Pelo meio, houve uma pequena mas importante batalha para a fazer seguir para o hospital onde eu queria que fosse assistida e não para aquele onde a rede de emergência a devia levar. No serviço de urgência foi diagnosticada a mais que suspeitada fractura do colo do fémur e marcada intervenção, para aplicação de prótese total, para daí a dois dias.

Inquietam-me as razões porque é que este episódio me deitou tanto abaixo, ao ponto de quase não conseguir parar de chorar. A minha mãe já sofreu gravíssimos problemas de saúde, alguns deles muito recentemente, que comportaram efectivo risco vital, e eu sempre reagi com tranquilidade e coragem. Mas desta vez, e quase desde a primeira hora, fui-me abaixo de maneira quase miserável.

Foram dias e horas terríveis, agravadas por questões muitíssimo desagradáveis, que implicaram o adiamento da operação por 24 horas, com acréscimo de angústia, pela incerteza do resultado, mas sobretudo pelo prolongamento do sofrimento da minha mãe. Mas estes dias foram ainda difíceis pela situação de grande dependência e fragilidade psicológica do meu pai, e pela necessidade de o manter sempre acompanhado e com a serenidade possível.

Sinto uma enorme opressão por saber que os próximos tempos vão ser muito complicados, e por não conseguir perspectivar o que vai acontecer, tantas são, ainda, as incertezas, e precários e provisórios os equilíbrios. Mas gostaria de pensar, e conseguir arranjar alguma tranquilidade nesse pensamento, que hoje à noite a vida começou, ainda que timidamente, a regressar ao seu curso normal, e a libertar-se da angústia.