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Em 1975 Paul Theroux, então com pouco mais de trinta anos, publicou o seu primeiro livro de viagens, The Great Railway Bazaar, sobre uma viagem de comboio de Londres até ao Japão, através da Índia e do Sudoeste Asiático, e respectivo regresso através do Transiberiano. The Ghost Train to The Eastern Star, o seu mais recente livro, publicado em 2008, conta a viagem em que Theroux, com o dobro da idade, refez essa travessia asiática.

Estou a ler o livro em inglês, o que me atrasa um pouco a progressão, porque a escrita de Theroux não é propriamente das mais fáceis de ler no original. Apesar da repetição, esta viagem de Theroux não segue exactamente os passos da primeira, e na primeira parte do livro, a que acabei de ler, isso é mais acentuado, uma vez que o autor não pode, como anteriormente, atravessar o Irão e o Afeganistão, tendo optado por um percurso através das ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central. O relato de Theroux é marcado pelas suas impressões de países dilacerados pela pobreza e pelos novos capitalistas, dominados por ditadores, pela violência e pela resignação.

Mas quando chega à Índia, onde entra pelo norte, em Amritsar, no Punjab, o livro ganha vivacidade, e é notório o quanto Theroux gosta da Índia, do seu carácter e da sua atmosfera. O livro é sempre mais interessante quando se focaliza nas próprias viagens de comboio, nos encontros, nas conversas, nas histórias e aventuras.



Antes deste Ghost Train tinha lido um curto volume intitulado Traço de Viagem, da autoria de Manuel João Ramos, um conjunto de relatos curtos de viagens que o autor encetou na Europa e em África, sobretudo no norte, nos países do Magreb. O livro tem a atracção de conter, além dos textos, desenhos do autor, que conjuga o seu gosto pela ilustração com as suas actividades de antropólogo, e que são, de certo modo, os leitmotif das suas viagens. Pessoalmente gostei mais dos desenhos, do modo como por vezes se aproximam da banda desenhada, nomeadamente por causa de uma certa vocação narrativa, mas também do seu carácter fragmentário, da maneira como acumulam observações e notas, apontamentos e comentários.

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Em Two Lovers James Gray faz, de certa maneira, o que já tinha feito com We Own The Night: utiliza as convenções do género (agora é o melodrama) para conseguir penetrar fundo na história e nos seus personagens. O objectivo é revelar, sem contudo iluminar, essa zona particularmente sombria que é a dos sentimentos, e que é tão difícil de filmar, ao menos com a conta, peso e medida que reclamam.

O resultado é um filme pungente sobre o desamparo humano, em que a única coisa que salva as personagens é serem verdadeiras consigo próprias. Por isso sentimos uma espécie de alívio quando Leonard, no fim, como que escolhe a única opção que lhe resta. É, apesar disso, ou por causa disso mesmo, um final feliz tristíssimo, magoado: a Leonard, uma vez que lhe é negado o absoluto, o sublime, resta refugiar-se numa zona de conforto onde a tristeza tem um sabor mais doce e aconchegado.

Para a intensidade do filme contribuem, para além da óbvia maestria do realizador, os actores. Se a Gwineth Paltrow parece nunca conseguir sair da segurança do tom justo, já o regresso da Isabella Rosselini é esplendoroso: com um mínimo de recursos, e uma presença no ecrã sempre breve, a actriz consegue compor uma das personagens mais determinantes e reveladoras do filme. Mas é a Joaquin Phoenix que cabe o prodígio de explicar, encarnando, a delicadeza e a pungência deste melodrama. Há uma verdade no seu desempenho que torna quase despudorada esta coisa de olhar para ele, quase como se estivéssemos a ver o que não devia ser visto, uma ferida intima que deveria ser de todo preservada dos olhares alheios. Se é verdade que JP não faz mais filmes, o que lastimo sinceramente, pois é um dos meus actores preferidos, então esta é bem capaz de ser a sua melhor interpretação de sempre.
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