August 14th, 2009

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cataratas

CATARATAS

Na segunda noite decidimos não ficar a jantar no hotel das cataratas e apanhámos um táxi para a pequena cidade fronteiriça. O restaurante onde o condutor do táxi nos deixou ficava um quarteirão fora da zona mais movimentada da rua principal. Era o melhor restaurante da cidade e estava praticamente cheio, mas foi fácil arranjar mesa. Para falar com franqueza, não me lembro se era bom, nem me lembro do que comi, mas suponho que não tenha sido mau, para não deixar impressão.

Mas também aos anos que isto foi, não me admira que já nem me lembre. Foi há tantos anos, e tenho impressão de que já escrevi sobre essa noite, sobre as luzes pálidas e descarnadas da rua, sobre uma certa sensação excitante de ausência, própria das coisas de que estamos fora ou que já acabaram.

No fim do jantar percorremos devagar a rua, de ponta a ponta. O movimento de há um par de horas atrás tinha-se dissipado por completo. Apenas permaneciam abertas algumas lojas de recordações turísticas, mas que estavam tão vazias que até os seus proprietários tinham um ar desencorajador.

Lembro-me vagamente de uma esquina onde havia um stand de automóveis, com bandeirolas de cor a enfeitar o parque de estacionamento. Lembro-me porque as cores das bandeiras e o brilho lustrado dos carros eram um toque festivo contrastante com a desolação nocturna generalizada.

Chegámos à outra extremidade da rua principal, onde havia uma pequena rotunda e onde ficava a praça dos táxis, mas não estava nenhum carro estacionado. Havia bancos com letreiros iluminados e bêbados e crianças sentadas junto às caixas de levantamento automático. Havia também uma mercearia, que ainda estava aberta, e de onde saíam homens com latas de cerveja em pacotes de seis.

Um homem ainda novo, de feições muito marcadas e o cabelo muito forte, liso e brilhante de tão negro, carregando sacos a abarrotar de mantas bordadas, parou a conversar. Ofereceu-nos chá, que ainda fumegava numa enorme caneca de alumínio.

Entretanto chegou um táxi, pintado de um vermelho muito vivo, e entrámos nele. Saímos da cidade e à nossa volta era a mais completa escuridão, apenas se via a estreita faixa de alcatrão iluminada pelos faróis fracos do automóvel. Pela janela aberta, o barulho da catarata sobrepunha-se ao som do motor do carro.