August 13th, 2009

rosas

nação crioula


Depois dos três volumes de Millennium, mais de 1800 páginas de crimes e atmosferas sombrias, precisava de qualquer coisa breve e refulgente para me distrair. De um amouse bouche. Tinha cá em casa um livro do José Eduardo Agualusa, há muito tempo (fui ver a data em que o assinei, Março de 1998) e que, por qualquer razão, nunca tinha lido. Nação Crioula, creio que um dos primeiros do autor e um dos mais premiados.

O livro é uma pérola, mais até de concepção, de ideia criativa, do que propriamente de escrita. Quer dizer, o livro está muito bem escrito, mas nota-se que é ainda um livro de maturação, de um escritor que está a fazer mão. Sobretudo se comparado com os livros mais recentes de Agualusa. Mas a ideia do livro é genial: Carlos Fradique Mendes, o "português mais interessante do século XIX", personagem criada por Eça de Queirós e cuja obra conhecida é constituída essencialmente por correspondência, escreve uma série de cartas que se centram na sua passagem por Angola e pelo Brasil.

Para além de relatarem a sua paixão por uma mulher, personagem admirável, que nasceu escrava, tornou-se dona de escravos e mais tarde militante anti-esclavagista, as cartas de Fradique vão ainda dando conta do seu próprio processo de consciencialização da tragédia humana que foi a escravatura, por oposição ao seu papel decisivo na economia novecentista, e de como essa tomada de consciência se transformou em acção.


Um dos poucos homens que não quis ficar foi Cornélio, o velho hausa de quem lhe falei em carta anterior: veio ter comigo muito sério, com o antigo orgulho da raça, explicando que pretendia regressar a África, e visitar a Meca, e depois morrer. «A vida de um escravo», disse-me, «é uma casa com muitas janelas e sem nenhuma porta. A vida de um homem livre é uma casa com muitas portas e nenhuma janela».

- José Eduardo Agualusa, NAÇÃO CRIOULA