August 6th, 2009

rosas

mother & child


Passam poucos minutos das oito da manhã, mother & child saem do pequeno hotel de área de serviço de auto-estrada. Parecem, na manhã ainda velada e fresca do pino do verão, um pouco estranhos naquele lugar de anónimas e passageiras transgressões. Entram na auto-estrada para fazerem os poucos quilómetros até ao hospital do coração, e, à chegada, enquanto manobram o automóvel nas inconveniências do tráfego, saiem do corredor envidraçado que dá acesso ao hospital, dois rostos familiares, amigos como a ternura. Que surpresa. De súbito aquilo que parecia uma luta de nervos contra a ansiosa solidão das horas, ganha o conforto dos projectos familiares, em que juntos resistimos melhor. E vai ser assim, a ansiedade a diluir-se na companhia, ao longo das horas, que começam a passar. Lentas, uma a uma, levando o dia em sobressaltos de sol em chapa e pancadas de vento fresco. Uns minutos na sala de espera do piso, um calor que empapa tudo em suor e mal-estar. Mais uns minutos cá em baixo, no átrio de entrada, os olhos a distrairem-se com o cortejo, sofrido mas encorajadoramente resiliente, de rostos assimétricos e membros presos. Uns minutos mais cá fora, à sombra calma das árvores, na azáfama tranquilizadora do parque de estacionamento. Atravessa-se a rua e mais uns minutos de esplanada, cafés e águas a diluirem a conversa. Silenciosa, ao longe a paisagem: a mancha verde, o arco invertido dos cabos da ponte, o brilho incessante dos aviões. E de novo os átrios, as salas de espera, o corropio dos elevadores, a solitária desolação dos corredores, a varanda que, fresca e sombria, sabe a promessa e a liberdade. Quando finalmente chamam os acompanhantes da doente, há uma outra pessoa que se levanta e apresenta: é amiga de longa data, de longos telefonemas, de longas conversas, amiga de voz, e que aproveitou a ocorrência para se conhecerem pessoalmente e dar um abraço apertado. É esse abraço apertado, trocado entre duas mulheres quase octogenárias, que não sai da lembrança, que trouxe outra vez auto-estrada acima, ao sol do fim de tarde. É abraço cheio da urgência do atraso, vem de outro tempo e de outra terra, vem de longe, de longe...