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Aqui há semanas, quando faleceu a coreógrafa Pina Bauch, apetecia-me escrever qualquer coisa sobre o assunto, mas não consegui descobrir exactamente o quê. A verdade é que nunca vi nenhum espectáculo da PB ao vivo, apesar de várias mas todas infrutíferas, tentativas. A minha relação com o trabalho da PB reduzia-se, assim, àquilo que sobre ela conheço por acompanhar com alguma atenção as artes, e por gostar de dança; e também ao facto de uma vez ter tido oportunidade de conversar durante algumas horas com alguém que aprecia e assume a influência de PB, e de parte significativa dessa conversa ter sido precisamente sobre o trabalho da coreógrafa alemã. Pensei que se calhar fazia sentido escrever sobre essa ausência, mas faltou-me, na altura, disponibilidade mental para elaborar sobre isso.

Imaginemos um determinado escritor: conhecemos as suas entrevistas, lemos artigos sobre ele, vimos inúmeras fotografias e reportagens, e lemos muitas citações e excertos tirados dos seus livros. Mas nunca lemos um único livro dele. O que é que podemos dizer acerca dele? Ou melhor, porque é disso que se trata, o que é que podemos dizer acerca do lugar que ele ocupa em nós?

Lembrei-de tudo isto, outra vez, a propósito da notícia da morte de Merce Cunningham. Acho que também nunca vi ao vivo nenhuma coreografia do MC, mas de alguma maneira fui mais exposto, ou se calhar exposto com mais intensidade, à sua arte. Ou então tem mesmo a ver com os diversos carácteres dos dois coreógrafos e, de algum modo, sou mais fascinado por uma certa vocação de liberdade da dança de Merce Cunninhgam. Gostava muito de ver filmagens em que ele participava, mesmo já depois de velho. Há poucas coisas mais bonitas do que ver um velho bailarino, a quem o corpo já começa a fugir, a dançar numa espécie de coreografia da memória. Percebe-se que na sua cabeça é ainda o seu corpo jovem e forte e sob um controlo absoluto, que executa os movimentos e os passos.

E depois Merce Cunningham era um dos poucos representantes que restam, de um momento em que, nos Estados Unidos e sobretudo em Nova Iorque, a arte reinventou-se a si própria e inventou o futuro. Por isso de alguma maneira com o desaparecimento de Merce Cunningham o sentimento que nos assalta é o de que perdemos, um pouco, as fantásticas promessas que o futuro nos faz.