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a candidatura
rosas
innersmile
A notícia do dia foi indubitavelmente a inclusão de Miguel Vale de Almeida em lugar elegível na lista de candidatos por Lisboa, do PS, a deputados na próxima eleição legislativa, em 27 de Setembro de 2009.

É uma boa notícia, a vários níveis. Desde logo porque é a primeira vez que há um candidato a deputado que é homossexual assumido. Mais, cuja notoriedade pública tem em grande parte a ver com o facto de ser homossexual. E mais, essa notoriedade deve-se sobretudo ao activismo na luta pela plena cidadania dos homossexuais.

É uma boa notícia, ainda, pelo impacto que representa na sociedade e na mentalidade portuguesas. A política nacional vai deixando, aos poucos mas radicalmente, de ser o reduto de um certo marialvismo muito característico do exercício de poder em Portugal. Por outro lado, a única arma eficaz no combate à homofobia é a visibilidade, e não há, ou não devia haver, lugar mais visível do que o mais elevado fórum de representação do Estado.

E é uma boa notícia, finalmente, porque se trata em especial de Miguel Vale de Almeida. Homem de esquerda, intelectual, tem sido nos últimos anos, e desde há bastante tempo, um activista irredutível, mas sempre moderado, sensato e conciliador. Enquanto cidadão pertencente a uma minoria que, pelo facto de o ser, vê limitada a sua cidadania, agrada-me particularmente que o meu representante no parlamento seja alguém com o estofo, a inteligência e, repito, a moderação de Miguel Vale de Almeida.

Faz todo o sentido que tal candidatura surja no PS. O PS é um partido de massas, é um partido ideológico, e é um partido de poder. Nesse aspecto, o PS é, no espectro político nacional, o partido mais típico de uma democracia. Por isso é bom que esta candidatura inaugural apareça no PS e não, por exemplo, no Bloco de Esquerda, onde teria um cariz acentuadamente ideológico.

Só mais duas notazinhas. A primeira é que me espantou um pouco a dificuldade que algumas pessoas, nomeadamente meus amigos, dos blogs e não só, tiveram em ‘engolir’ esta candidatura em face do chumbo do PS à proposta de reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo, por iniciativa do BE, e que ocorreu há menos de um ano. A mais que provável eleição de Miguel Vale de Almeida como deputado à Assembleia da República tem uma dimensão muito superior à questão do casamento. Além disso é um erro reduzir a luta pela plena cidadania à questão do casamento. É muito mais vasta do que isso. A questão do casamento é importante sobretudo pelo seu valor simbólico. É uma causa, mas que não esgota uma luta.

A segunda nota, sinto muito, diz respeito à única coisa que me incomodou nesta candidatura. Desde há uns tempos que a intervenção pública de Miguel Vale de Almeida se vinha pautando por uma aproximação ao PS. Era nítido e, face às razões apresentadas, fazia sentido. Mas é impossível, à luz da notícia de hoje, pensar que essa intervenção não trazia já o compromisso desta candidatura. O que, infelizmente e de alguma forma, macula a justeza dessas razões. Não sei, com toda a franqueza, nem se isto é rigorosamente verdade, nem, se o for, se haveria outra maneira de fazer as coisas. Mas uma maneira diferente de estar na política é também uma maneira de estar eticamente na política.
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