July 17th, 2009

a_seco

estação seca . 19/25

19

Bebes gota a gota de um copo vazio.
Transtornam-te os sonhos, e acreditas que podes viver na piedosa mentira dos pesadelos, essa vertigem medonha que te faz acordar sobressaltado para um pesadelo ainda pior: o da tua incapacidade em morderes o teu próprio rabo, condenado à morte de andares sempre às voltas de ti próprio, até te despenhares explodindo contra a venenosa fuligem das manhãs.
Há momentos em que acreditas que o melhor da tua vida são esses fotogramas que deslizam projectados contra a tela interior das tuas pálpebras. Trazes contigo as imagens, porque elas te levam de estação em estação, transportam-te como se não andasses, fazem-te leve à subtil recordação do branco. Fechas os olhos e lá estão os teus anjos, vestidos de esplendor, a pele brilhante, os rostos resplandecentes. São suaves e frondosos os teus anjos, quando tropeças nas suas existências nebulosas. Andam contigo ao colo na exacta medida em que tu os transportas imortalizados num feixe de luz. És, na pior das hipóteses, um pateta.
Abater-se-á sobre ti, se tanto mereceres, a misericordiosa graça de uma noite de sono, uma noite de dormires bruto como um animal de quinta, que só é meigo e gentil até à hora do matadouro. Pede, pateta. Talvez assim consigas adormecer um sono limpo do vício dos teus pesadelos, talvez assim ainda haja esperança de, agora e na hora da tua morte, bater na tua mão um outro coração que não de animal, um coração frágil e rosado como uma seta, um coração sereno e despojado de pesadelos e outras imagens, um coração, em suma, humano.
Abres a janela e, lá fora, para destoar, chove. Bem-vindo ao teu dia, sorris perante a perspectiva de uma depressão cinzenta e húmida.