July 10th, 2009

rosas

serbis

Já tinha visto um filme do realizador filipino Brillante Mendoza, Pantasya, e não tinha achado grande piada. Mas vi agora Serbis (Serviço) e gostei bastante. Tenho ideia de o filme ter sido exibido num festival de cinema português, creio que no IndieLisboa, mas não tenho a certeza.

O filme é todo construído à volta (ou melhor, dentro) de um velho cinema, daqueles enormes, com plateia, balcão e muitos foyers, que está completamente decrépito, sujo e degradado, e cuja programação consta de filmes pornográficos, em sessões frequentadas sobretudo por homossexuais à procura de engates. O velho cinema chama-se Family, é gerido por uma família que vive nas próprias instalações, e constitui o palco da sua luta pela sobrevivência.

O edifício é, e isso para mim é o mais fascinante do filme, a sua principal personagem. O modo como são ocupados os espaços, o forte contraste entre a função para que foram criados e a sua actual utilização, o modo como esses espaços cederam e tiveram de se adaptar, a maneira como o filme vai percorrendo e desvendando os circuitos, os corredores, as escadarias, como entra e sai das salas, tudo isto dá ao edifício um carácter quase orgânico. Como se fosse um barco que navegasse através das ruas da cidade (como o edifício da companhia de seguros no início do filme dos Monty Python, The Meaning of Life), a qual quase só se entrevê a partir do interior do próprio cinema.

Apesar de as personagens não serem muito desenvolvidas do ponto de vista dramático e de lhes faltar alguma espessura e densidade, a família e os clientes do cinema e do seu restaurante (enfim, por assim dizer) constituem o outro polo de interesse do filme. Muito pelo modo como a câmara ora os vai seguindo nos seus percursos labirínticos pelo interior do edifício, um pouco como se estivesse à procura do seu desígnio, ora como se detém a contemplá-los, na expectativa de uma revelação. Se a personagem da matriarca da família se assume como o pólo dinamizador da narrativa, para mim as personagens essenciais do filme são, como é óbvio, as de Nayda e Alan, respectivamente tia e sobrinho, que nos seus papéis muito contrastantes, simbolizam os dois vectores que marcam esta família: uma tenaz vontade de sobreviver, e um inelidível desejo de evasão.