July 1st, 2009

ghostrain

o velho expresso da patagónia



Por vezes, quando estou fascinado com um livro, só me apetece lê-lo, de seguida, quase sem levantar a cabeça, completamente absorvido. Outras vezes a maneira de um livro me fascinar é brincar com ele, entreter-me, tomar notas, recortar e fazer colagens. Ok, não propriamente em sentido literal, pelo menos os recortes e as colagens.

É o que me está a acontecer com o livro que estou de momento a ler, O Velho Expresso da Patagónia, de Paul Theroux. É um clássico da literatura de viagens, publicado pela primeira vez há quase 30 anos, e que se conta em duas penadas: um dia o Paul Theroux apanhou o comboio suburbano que o levou da cidade de Medford até Boston, e foi mudando sucessivamente de comboios até chegar à Patagónia. Ao contrário do que é habitual na literatura de viagens, que nos fala dos lugares visitados, o objecto do livro de Theroux é a viagem em si. Não o lugar, mas o modo como se chegou lá.

Se a ideia já de si é fascinante, o estilo de Theroux torna-o irresistível. Não sendo propriamente uma personagem muito simpática, é o seu humor, as suas idiossincrasias, as suas observações sempre pouco complacentes. Mas, atenção, Theroux não chega exactamente a ser arrogante, e se o seu olhar nunca deixa de ser o do estrangeiro, do forasteiro de passagem, essa é também a sua maior honestidade, a sua razão.

Até ao ponto do livro onde estou, pouco menos de meio, quando Theroux acabou de fazer aquela que creio ter sido a única viagem de avião que fez (ele não fala sequer disso, não gosta de viagens de avião e por isso não se rebaixa a falar deste ponto fraco da viagem), entre El Salvador e a Costa Rica, uma vez que não teve autorização para atravessar a Nicarágua, então a viver o período final da ditadura dos Somoza e a revolução sandinista.

O livro compõe-se essencialmente das peripécias relativas à própria viagem, às linhas férreas, aos comboios; de apontamentos sobre as paisagens e os lugares; e dos encontros que Theroux vai tendo ao longo da viagem, e que compôem uma galeria de personagens notável.

Estou a companhar o evoluir da viagem de Theroux através das Américas nos mapas do Google Earth, tentando reconstituir todos os percursos, as linhas férreas utilizadas, os pontos de fornteira atravessados. Estou, além disso, a apontar todas as cidades (enfim, quase todas) que Theroux vai referindo ao longo da prosa, e também os livros que ele vai lendo (e que são igualmente uma parte importante da viagem). Apetecia-me ir pondo aqui estas listas de lugares e de livros, e se calhar ainda o faço. Também tentei desenhar no mapa todo o percurso do Theroux, mas por um lado há pedaços do texto que são demasiado imprecisos para conseguir reconstruir o trajecto, e por outro há linhas férreas que não se conseguem ver no Earth. Seja como for, ler um livro destes, e partilhar a aventura de Theroux, é só por si uma pequena aventura.

Para quem esteja eventualmente interessado, o blog da editora Quetzal tem o primeiro capítulo do livro disponível para download, e o Books.Google tem a edição integral do livro, em inglês.