June 24th, 2009

rosas

permanente

Em 2004, julgo que logo no início do ano, a minha amiga S. ofereceu-me uma caneta de tinta permanente. Sempre gostei muito de escrever com caneta, e ainda que a maior parte das canetas que tive (e tenho) fossem das mais baratas, cheguei a usar clássicos como a Mont Blanc ou a Parker. Tenho a maior parte dessas canetas guardadas, infelizmente não no melhor estado de conservação, ou seja, não as limpo nem as mantenho em bom estado.

A caneta que a minha amiga me ofereceu, para suavizar um momento muito complicado a nível profissional, é dessas mais baratas, de cartucho, de uma marca muito comum, que estão à venda em montinhos nos balcões das papelarias. O corpo da caneta é de plástico, claro, de cor azul, com um padrão discreto de umas flores, e um nome de uma senhora em espanhol que não faço ideia quem seja, suponho que uma designer ou coisa do género. Enfim, uma caneta sem nada de especial, daquelas para usar durante uns tempos e acabar por perder, mais não seja no fundo de uma gaveta.

Acontece que comecei a usar a caneta logo na ocasião em que ela ma ofereceu. Gostei da leveza e do volume do corpo, e da maciez do aparo. Durante muito tempo usei cartuchos de tinta negra, sem marca, que um amigo me ofereceu em duas saquetas de plástico cheias, e que ele tinha em casa à espera de uma oportunidade para deitar fora! Quando acabaram (guardo ainda dois, de reserva) comecei a usar aquilo que ia encontrando, que não é muito frequente encontrar à venda cartuchos de tinta permanente, sobretudo nos supermercados do material para escritório. Aqui há tempos, encontrei cartuchos Pelikan de tinta azul à venda pelo preço da chuva na Papelaria Fernandes, e comprei logo um carregamento deles.

Nunca mais deixei de usar a caneta e é seguramente aquela que usei, e ainda uso, durante mais tempo. Com o tempo o aparo foi-se fazendo totalmente à minha mão, e à maneira pouco usual como pego nas canetas e nos lápis, com três dedos, em vez dos habituais dois como nos ensinavam na escola primária. Agrada-me o facto de quase não precisar de fazer pressão com os dedos para escrever, o que é uma vantagem quando se têm de fazer muitas assinaturas por dia. E se a maior parte dos documentos escrevo directamente no computador, é a caneta que uso para tomar notas no caderninho que anda sempre comigo, nas reuniões ou para fazer as vezes de agenda, no dia a dia.

A minha caneta está sempre à mão na secretária ou na mesa de reuniões, e é um objecto que tão naturalmente prolonga a minha mão, que geralmente pego-lhe quase sem precisar de a procurar com o olhar, sei sempre mais ou menos onde ela está, onde é que a larguei. Mesmo quando fica debaixo de uma pilha de papéis, mesmo assim tenho sempre noção onde a deixei. O que não acontece, como é óbvio, com os outros materiais: ando sempre à procura do agrafador, ou dos marcadores, os lápis sucedem-se na minha mesa com um turn-over estonteante, estou sempre a perdê-los, nunca encontro a lista telefónica, e isto para já não falar dos papéis, claro, das fotocópias, dos ofícios, dos livros, dos relatórios, das pastinhas de plástico com o expediente.

Mas porque é que eu comecei a falar na caneta de tinta permanente? Ah, já sei! Na segunda-feira, vinha eu de uma reunião, com a tampa da caneta presa na capa do caderninho, quando a caneta se soltou e caíu ao chão. Conclusão, o aparo ficou a arranhar e a tinta a falhar. Até fazia barulho, o aparo a arranhar no papel. Que chatice, um aparo tão macio, tão moldado. Claro que a coisa aos poucos vai ao sítio, e de vez em quando pego numa folha de rascunho e ponho-me a fazer riscos e rabiscos, para, literalmente, ir limando o aparo nos pontos em que ficou áspero. Até acho que hoje já está a ficar um pouco mais macio, a tinta a sair de um modo mais uniforme, a voltar outra vez aquela suavidade na escrita. Temos caneta!
rosas

um lobo à mesa



O Augusten Burroughs é autor de um romance, Sellevision, o único que não li, dois volumes de histórias autobiográficas, Magical Thinking e Possible Side Effects, e os que lhe granjearam maior popularidade, os volumes de memórias Running With Scissors e Dry, ambos editados em Portugal, relatos na primeira pessoa do singular de situações disfuncionais levadas ao limite, salvas pelo humor do Augusten, que é feito da mais ácida auto-ironia que se possa imaginar.

Acabei de ler agora o mais recente volume destas memórias, A Wolf At The Table, dedicada à figura do pai de Augusten, e centrada sobretudo na sua infância (Scissors era sobre a adolescência e Dry sobre os twenties). É de longe o meu livro preferido do Augusten, e isto é dizer muito porque eu já era um fã da sua escrita. É um livro negríssimo, de uma crueldade que chega a ser chocante, de um sofrimento que só não leva às lágrimas porque ficamos absolutamente secos e mudos. Não consigo bem apontar o que é que é diferente neste livro que o torna mais poderoso do que os anteriores, mas tem a ver, talvez, com o facto de Augusten ter posto candura onde antes punha humor. Ou também com uma certa tranquilidade que emana do livro, e que pode parecer paradoxal face à sua crueza. Pode ter a ver, enfim, com o facto de enquanto os livros anteriores serem relatos de disfuncionalidades, este é quase apenas sobre um sofrimento que é tão incompreensível que se torna manso, mudo. Quase como se tivéssemos uma ferida que nos alimenta tanto quanto nos consome e destrói.

Os livros anteriores do Augusten, sobretudo o Running With Scissors, que foi um fenómeno brutal de vendas nos EUA, estiveram sempre rodeados de alguma polémica, nomeadamente no que toca à exactidão e ao rigor dos relatos memorialistas. Houve sempre, nomeadamente da parte de algumas pessoas envolvidas (mesmo com o disfarce dos nomes alterados), uma forte contestação quanto à sua veracidade, acusando o autor, não de dourar, mas de enegrecer a pílula. Não sei se o mesmo aconteceu em relação a A Wolf At The Table. Mas garanto que se o que lá está é verdade, todas as infâncias difíceis vão parecer brincadeiras de crianças ao pé do deserto espinhoso de medo e solidão emocional que foi a infância de Augusten.


Escrevi este texto há dois ou três dias, no momento em que terminei a leitura do mais recente livro de Augusten Burroughs. Não o publiquei de imediato, porque precisava que acalmasse a comoção que foi a sua leitura. Precisava de arrefecer, de ganhar distância. Percebi que nestes dias o livro continua comigo, e que é um livro que me marcou profunda e intensamente.

Há livros, e autores, de que gostamos muito, e este era o caso, comigo, do Augusten Burroughs e dos seus livros. Mas de vez em quando aparece um livro que nos toca de maneira especial. Nem sequer é o caso de dizer que o livro me falou de modo particular, longe disso, não tive uma infância difícil, antes pelo contrário, fui sempre muito amado e, enfim, a minha família sempre este ali dentro da curva de Gauss da funcionalidade normal. De modo que não é uma questão de identificação. Acho que é mesmo o caso de o livro estar tão bem escrito que é impossível não nos deixarmos invadir pela sua história, mais até do que nos emocionarmos com o facto de se tratar de uma memória de infância do autor. Todo o livro é negro, sombrio, há nele uma ânsia, uma sede, e ao mesmo tempo uma ausência, um vazio; isso tudo que nos transporta creio ao que de mais elementar e essencial existe no sentimento humano. De algum modo, a essência do amor, e por isso do humano, está presente, na sua forma mais dolorosa e pungente, em cada página deste livro.