?

Log in

No account? Create an account

1 autora, 202 canções
rosas
innersmile
Um concerto delicioso, ontem, o da Ámélia Muge no Teatro Aveirense. Acompanhada em palco por Filipe Raposo (excelente pianista e autor dos arranjos, ou pelo menos de alguns deles) e pela violoncelista Catarina Anacleto, e ainda pelos samplers manuseados pelo incontornável José Martins, o concerto surgiu no seguimento de um outro que a Améia Muge fez, creio que no CCB, há uns bons meses atrás, sob o signo das 202 canções que tem registadas na SPA, como autora.

O concerto serve assim para passar em revista alguns temas antigos da cantora, e também para mostrar algum do trabalho que Amélia Muge tem feito para outros intérpretes, sobretudo da área do fado. Confesso que para mim foi uma oportunidade maravilhosa de ouvir alguns dos meus temas preferidos da Amélia, um deles, se bem me lembro, que nunca a tinha ouvido antes cantar ao vivo, o Colchão às Riscas.

A Amélia Muge tem três qualidades que lhe dão um carácter extraordinário no panorama da música popular portuguesa, e que nunca deixam de marcar os seus concertos tanto quanto o seu trabalho em disco. Primeiro é uma compositora inspiradíssima (como o provam os trabalhos que tem feito para outros intérpretes) e com um domínio perfeito dos textos, quer dos que ela própria escreve quer dos que escolhe para as suas composições. Depois, é uma criadora que gosta de arriscar e de experimentar, que trabalha sobre ideias e não sobre fórmulas. Finalmente é uma excelente intérprete, que procura sempre encontrar o tom e o fraseado adequados à melodia e às palavras das canções. A estas qualidades a Amélia Muge alia ainda um conhecimento profundo da música popular, da sua história e dos seus grandes criadores, e que ela incorpora nas suas canções e nos seus concertos, muito mais como inspiração do que como influência.

Claro que a sua música não é própriamente fácil, e exige do ouvinte ou do espectador do concerto, atenção, entrega e disponibilidade. A essa falta de facilitismo, a Amélia junta uma opção, assumida, pelas margens, que regateiam em popularidade o que transbordam em liberdade criativa. Já tive a experiência traumatizante de arrastar para concertos da Amélia Muge amigos que pura e simplesmente detestaram. Felizmente até isso ontem correu bem, e os amigos com que fui ao concerto, e que não a conheciam de todo, ficaram rendidos à 'múgica' da Amélia.

Houve um aspecto no concerto de ontem que dá bem a medida da maneira de estar na música da Amélia. Creio que na véspera do concerto, a Amélia Muge fez um workshop onde participaram membros de dois grupos corais da região. A Amélia decidiu incorporar essa experiência no concerto, solicitando, em dois momentos, ao público presente mas sobretudo às pessoas que participaram no workshop, a sua intervenção directamente da plateia. Note-se que não se tratava tanto de pôr o público a acompanhar as canções, como é habitual, mas usar o trabalho feito para dar alguma coisa de diferente às canções. É esta capacidade de experimentar, de expandir, de criar, que tornam a Amélia Muge num dos nomes de primeira importância da música popular portuguesa.
Tags: