June 15th, 2009

rosas

barroco tropical



É uma coisa assim aparentada da euforia: começo a ler os livros do José Eduardo Agualusa e fico logo num estado de espírito um tanto ou quanto excessivo, transbordante. Talvez por conterem tão justamente a medida da vida, os romances de Agualusa parecem sempre maiores do que ela. Foi isto, mais uma vez, que me aconteceu com a leitura de Barroco Tropical, o seu mais recente livro.

Assumidamente com pretensões a ser uma distopia, a acção do romance passa-se em 2020, o que permite ao autor traçar um retrato negro da sociedade actual angolana, se não ainda exactamente como ela é, muito mais como ela está a caminho de se tornar. Agualusa é, como se sabe, um crítico do regime de Angola, o que lhe tem valido alguns dissabores. E neste livro essa crítica é particularmente impiedosa, tanto mais que Agualusa autor põe muito da sua experiência, das suas experiências, nas desventuras por que passa Bartolomeu Falcato, o protagonista.

Mas se o quadro é sombrio, a escrita de Agualusa é sempre humorada, luminosa, e o livro lê-se numa fervurinha, com as sua galeria de personagens a bordejar o inverosímil, e uma sucessão de peripécias, em tom de thriller político, que tornam difícil interromper a leitura. Depois, o jogo da autobiografia, a que já me referi, acrescenta humor e desafio à narrativa, tornando-a especialmente instigante.

Em notas no final do texto, Agualusa explica que o título do romance corresponde a um termo utilizado pelo poeta moçambicano (no sentido geográfico do termo) Virgílio de Lemos. Barroco Tropical é uma expressão feliz, e que assenta na perfeição à escrita de Agualusa, mas onde cabe toda uma corrente e uma influência que as literaturas dos Palops vieram trazer à língua portuguesa.