June 12th, 2009

rosas

o ilegível mármore, para um fotógrafo

É claro que a única maneira de falar de Ricardo Rangel que faça, e dê, algum sentido, agora (e) na hora da sua morte, é ver-lhe as fotos. Olhá-las, só, uma e outra vez, repetidamente, ainda outra vez, mais. Não sei se acontece com todos os fotógrafos, mas olhar as fotografias do Ricardo Rangel diz muito mais sobre quem as fez do que à partida se pudesse pensar. As fotografias do Ricardo Rangel fazem-nos apaixonar pelo fotógrafo, tanto quanto por elas próprias. Pois, não sei se isso é muito comum, mas a mim aconteceu-me, e parece-me que seja impossível não acontecer com quem quer que as olhe. E tanto nos apaixonamos pelo fotógrafo, quanto, e isso será eventualmente mais comum, nos apaixonamos pelo objecto das fotografias. Por exemplo, pelas prostitutas que Ricardo Rangel fotografou na série O Pão Nosso de Cada Noite. Ou pela cidade que Ricardo Rangel fotografou, e que é a mesma que está nos versos do Rui Knopfli. Mas se olhar as fotografias parece ser a única coisa que faz sentido, já não faz sentido enxamear estas páginas com elas. Logo, porque não seria fácil escolhê-las. Depois, porque quem as quiser ver, sempre as encontra.

Restam então, para dar sentido ao silêncio, as palavras. Ricardo Rangel, que era um apaixonado pelo jazz, possuía uma enorme colecção de discos de jazz e tinha, ou teve durante algum tempo, um clube de jazz na lindíssima estação de caminhos de ferro de Maputo, era também um homem de palavras, um contador de histórias, um conversador. Descobri-o aqui há tempos, quando vi, por acaso, um filme na televisão que lhe era dedicado. Um prazer, ouvir Ricardo Rangel contar as histórias da sua vida, contar a sua vida como se fosse uma história.

É tão supérfluo, e mesmo um pouco ridículo, fazer o panegírico fúnebre de Ricardo Rangel, dizer que era um nome incontornável da fotografia, um dos maiores fotógrafos africanos, um dos grandes fotógrafos mundiais da actualidade. Basta ter memória nos olhos, e atenção quanto baste, para o saber. Mas isso devolve o problema de saber como homenagear, como falar no fotógrafo, como dar sentido. Tavez procurando nas palavras dos outros. Ricardo Rangel personagem de romance. Ricardo Rangel destinatário de um poema (em ambos os casos, o que não é gratuíto de significado, acompanhado por outro fotógrafo de Moçambique, Kok Nam). Um excerto do livro de José Eduardo Agualusa, As Mulheres do Meu Pai, em que o périplo austral leva o narrador, diria inevitavelmente, a Ricardo Rangel. O outro é um poema poderoso e magnífico de Heliodoro Baptista, um poeta que a vida também perdeu há muito pouco tempo. Porque cada poema é sempre o ilegível mármore.


«Georgina garante que ele tem oitenta e dois anos. Custa a acreditar. Parece um jovem que cometeu muitos excessos. Claro que eu já o conhecia – através da obra e da reputação: Ricardo Rangel. Murmura-se este nome e logo alguém avança o rótulo: «Pai da Fotografia Moçambicana.» Implica certa responsabilidade, o raio do rótulo, pois Moçambique possui uma mão-cheia de excelentes fotógrafos. Eu gosto muito do Sérgio Santimano, um tipo meio preto, meio goês, com um espantoso olho lírico. Também gosto do Kok Nam, neste caso um moçambicano de origem chinesa, que acompanhou Rui Knopfli ao aeroporto no dia em que o poeta abandonou o país; isto só tem importância porque Knopfli nos deixou um registo poético do acontecimento: «É o fatídico mês de Março, estou / no piso superior a contemplar o vazio. / Kok Nam, o fotógrafo, baixa a Nikon / e olha-me, obliquamente, nos olhos: / Não voltas mais? Digo-lhe só que não. // Não voltarei, mas ficarei sempre, / algures em pequenos sinais ilegíveis, / a salvo de todas as futurologias indiscretas, / preservado apenas na exclusividade da memória / privada. Não quero lembrar-me de nada, // só me importa esquecer e esquecer / o impossível de esquecer. Nunca / se esquece, tudo se lembra ocultamente […]» Não sei o poema de cor, é claro, fui visitá-lo à Internet.»

- José Eduardo Agualusa


«T. S. ELIOT THE SHADOWS OF RAINBOW

(Ao Ricardo Rangel e ao Kok Nam)

1. The formal word exact without vulgarity
A história agora é o Iraque, já que nós, bronzeos,
e a história somos o molde. Na voz do sangue,
há sempre um negro ou cigano de violão azul.

Há um tempo para as estrelas dormirem
e outro para fazerem amor; quer dizer,
copular de olhos acesos ou já mortiços.

E inútil esbracejar ante os verdugos.
Diriam: espera assim, vergastado, pois virá
a escuridão. Teremos luz, o vinho, a dança, a orgia,
porque, sabes, os cavalos também se abatem. E as flores!
(Não é cada poema o caixão, o epitáfio, o ilegível mármore?)

2. Temos, há muito, sibilas, na boca e na garganta índicas.
Angoche ou Zavala são só luzes fixas pela "Nikon"?!
Temos a perturbação no vórtice das aves, na plena
rotação de iluminações luarentas; e há veios raivosos
de conversas cerca das gazelas e da pose eterna das garças.
Há rostos no oculto e este cheira a crime, a incursão
de uma balada de tiros, com odor perfeito, único,
do espumoso aberto às nossas 24 horas. Mas é do lar
da amizade ou da submissão? As praias e as reservas
devoram turistas e seus iates, aviões a jacto (ou, poeta,
da jactância?), pela agitação de tanto cascalho marinho.

And do not think of the fruit of action

3. É inútil esbracejar, se hispar a artéria do jazz
de um encenado morremorrer na Julius Nyerere
ou nos pês-agás da Coop. Ei-lo, o grito de Átila!
E ele tem alvos; não cessa o que, ímpio, enlameia
esta tecla (secas, fome; dilúvios, miséria!) de Dali,
de três metros suficientes para um poeta dizê-lo:
"Temos a cama franca, a mulher, útil paixão!"

Into another intensity; o fim é sempre evolução.


- Heliodoro Baptista