June 10th, 2009

rosas

lisbon report

O dia hoje começou cedinho, a apanhar o comboio em Coimbra B, na companhia de uma das minhas pessoas preferidas.

A primeira paragem foi o Museu Berardo, para ver a exposição Vitruvius Mozambicanus, uma mostra monumental do trabalho do arquitecto Pancho Guedes. Três razões para ter adorado esta exposição. 1ª, a maior parte do trabalho de Pancho Guedes foi feito em Lourenço Marques, Moçambique, e o diálogo com Moçambique é uma das características essenciais e definidoras da arquitectura e da arte de Pancho Guedes. 2ª, a percepção, bem evidente na exposição, de que Pancho Guedes perseguiu de modo exaustivo as suas formas, as suas ideias, os seus conceitos, e isso transforma a visita a esta exposição numa experiência total que nos arrasta para o traço e nos projecta no espaço. 3ª, porque há nestes desenhos, nestas esculturas, nestas maquetes, nestas fotos, uma vontade enorme de alegria, um excesso e uma extravagância que nunca são puro exibicionismo, mas antes a vontade de experimentar os limites, feita de exuberância e mesmo de uma certa euforia.
É quando vejo coisas assim que choro um amputado desejo de arquitectura.

A segunda paragem foi já no Chiado para almoçar no Koffeehaus, para matar saudades das férias vienenses. Recomendo muito este café à moda austríaca, que fica na Rua Anchieta, mesmo ao lado da loja A Vida Portuguesa (onde aproveitei para aumentar a família das andorinhas cá de casa). O almoço foi the works: wiener schnitzel,apflestrudel, e um cappuccino, que eu não sou dado a mélanges. Não falta nada, nem o luxozinho das bandejas com o café e o obrigatório copo com água.

Depois descida até à Rua Augusta para visitar a exposição Antestreia, que anuncia a instalação do Museu do Design e da Moda, com o feliz acrónimo MUDE, na antiga sede do BNU, junto ao arco que dá para o Terreiro do Paço. Este museu abrigará a Colecção Francisco Capelo, que durante anos residiu no CCB até ser ‘chegada para lá’ pelo Museu Berardo. Antestreia, está-se mesmo a ver, mostra peças da colecção, algumas já conhecidas do CCB, e algumas novidades, nomeadamente algumas peças de alta-costura dos nomes obrigatórios.

Mas a surpresa do MUDE está no primeiro andar, na exposição temporária Ombro a Ombro: Retratos Políticos (Head to Head), produzida e comissariada pelo Museu de Design de Zurique. É a mais espantosa e impressionante colecção de retratos e cartazes políticos, ou melhor de políticos, que eu alguma vez pensei ver. Uma verdadeira aula de história, a dois níveis: primeiro, ao recordar-nos a história mundial dos últimos 100 anos através dos seus protagonistas e do modo como eles procuraram ser vistos, ou foram vistos apesar de si próprios. A segunda lição prende-se com o valor icónico do cartaz político, que nos momentos mais conseguidos é simultaneamente uma forma de arte e um poderosíssimo instrumento de propaganda ideológica.
Como em todas as boas exposições, a riqueza do acervo é servida e potenciada por uma montagem excelente. Esta exposição é absolutamente obrigatória.

Já ao fim da tarde nova subida ao Chiado para um gelado no Hagen Dazs, antes de apanhar o metro para a bonita e airosa estação de Santa Apolónia (estou encantado por esta estação de comboios).
A única nota desagradável desta jornada foi mesmo ter assistido, involuntária e contrariadamente, a uma manifestação dos neo-nazis e proto-fascistas do PNR, suponho que para assinalar o dia de Portugal. Uns 50 jovens com ar cretino e uma meia-dúzia de velhos nojentos, a conspurcar o nome de Portugal.
Resgatou-me o orgulho pátrio, primeiro, o próprio Chiado, uma mistura alegre de gente de tantas raças e feitios, que transformam este num dos cinco ou dez lugares mais bonitos do país. E, depois, o cd da Carminho, que comprei no passeio lisboeta e que oiço agora. O disco chama-se Fado, e é quase irrepreensível. Ao contrário da voz da Carminho que, ela sim, é irrepreensível em absoluto, certamente a voz mais importante do fado de Lisboa desde que surgiu o Camané. Ouvi-la, é um arrepio perfeito. Isto sim é Portugal, ó meninos nazis.