June 3rd, 2009

rosas

escravos de jó

Este texto começa em dois tempos distintos. O primeiro foi a semana passada quando o Saint-Clair (sempre meu mestre) me mandou um mail com um link para um artigo sobre o cantor pop brasileiro, dos anos 60, Wilson Simonal, nomeadamente sobre um documentário que foi feito sobre o cantor e sobre os acontecimentos que precipitaram o fim da sua carreira de ídolo popular, e aceleraram a sua decadência pessoal. Eu conhecia bem o nome de Wilson Simonal, mas apenas muito vagamente as suas canções, e por isso arranjei modo de deitar os ouvidos a discos antigos do cantor. Uma pop leve e deliciosa, bem assente na Bossa Nova, servida por uma voz com um domínio extraordinário sobre a melodia e o tempo, a fazer lembrar, sem exagero e apenas para dar uma ideia (até porque a voz não é nada parecida), aquele registo swingado e muito livre do Frank Sinatra. É curioso como a Bossa Nova suportava registos tão diversificados e quase opostos, cabendo nela a concisão altamente elaborada de um João Gilberto, e o instinto quase preguiçoso da maneira de cantar de Simonal.

O outro tempo de que falei foi há 40 anos, mais coisa menos coisa. Eu era uma criança mimada pelos fulgores coloniais de Nampula (mal sabendo que eram os últimos), e os meus pais costumavam-me comprar discos de 45 rpm com histórias infantis gravadas. Suponho que esses discos ainda estejam guardados na casa dos meus pais, num álbum de plástico com capas azuis, do tipo dos que havia antigamente para guardar os discos. Algumas dessas histórias eram em português (histórias, se bem me lembro, da Odette de Saint Maurice, narradas pelo João Perry) mas a maior parte eram edições brasileiras. Lembro-me muito nitidamente de um deles, o Macaco e a Velha, de que ainda sei de cor alguns trechos.

Um outro, de que já não me recordo muito bem, era uma variação da história de João e o pé de feijão: a mãe pobrezinha do João manda-o à feira vender qualquer coisa (as galinhas ou a vaca, não sei) e ele troca a mercadoria por um punhado de feijões que, ao chegar a casa, a mãe deita fora pela janela. O pé de feijão cresce, até ao céu, e um dia o João trepa por ele até chegar a um sítio onde havia um gigante muito mau e comilão que quer caçar o João, já não sei se para o meter no caldeirão da comida. O João foge, traz umas traquitanas de oiro que rouba no palácio do gigante, que a mãe vende para ter dinheiro. Depois de muitas peripécias, pé de feijão acima pé de feijão abaixo, a coisa acaba com o João a cortar com um machado o pé de feijão precipitando a queda, e o fim inglório, do gigante. Se não era bem isto, era mais ou menos. Apenas tenho na memória auditiva pedaços muito breves da gravação, como o gigante a dizer com o seu melhor sotaque brasileiro: 'mulher, hoje estou sem apetite. Quero apenas um boi assado'!

Pois bem, acho que era nesta história do João (mas não garanto, pois a memória é muito ténue), que quando o rapaz chegava lá acima do pé de feijão, se ouvia um coro, que eu já não me lembro se era o gigante a cantar, ou se eram os prisioneiros no palácio, que cantava:

«Escravos de Jó, jogavam caxangá
Tira, bota, deixa o cão guerreiro entrar
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá»

Para falar com franqueza eu nunca percebi muito bem quais eram as palavras iniciais da cantoria, apenas tinha fixados os sons, qualquer coisa do género 'estava onde estava, jogando caxangá', mas do resto lembro-me muito bem. E o que é que isto tem a ver com o Wilson Simonal? É que estava eu a ouvir o álbum quando começou a tocar uma faixa intitulada Escravos de Jó, cujo refrão corresponde quase ipsis verbis, e apenas com uma ligeira alteração, mais do ritmo do que da própria melodia, à velhinha canção do disco de histórias:

«Escravos de Jó jogavam caxangá
Tira, bota, deixa ficar, deixa cair
Deixa ficar, deixa cair
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue za
Guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue za»

Fiquei completamente embasbacado a ouvir aquilo, uma coisa que eu não ouvia há tantos e tantos anos. Uma pesquisazinha ligeira na net disse-me que Escravos de Jó é uma cantiga de roda, uma cantilena para acompanhar um jogo infantil. E é, aparentemente, uma cantiga muito conhecida e popular. Não há certezas quanto à sua origem e as interpretações são as mais diversas quanto ao seu significado, até porque, concerteza, a versão actual será o resultado de muitas adulterações na sua transmissão oral através das gerações. Mas basta ler a letra com atenção para perceber que a sua origem está intimamente ligada à história do Brasil, e que terá surgido no seio dos escravos. Uma das interpretações que li (a mais etnográfica, digamos) considera jó uma alteração da palavra bantu ndjo, que denominava os escravos domésticos, os escravos da casa.

Não tenho ideia nenhuma de alguma vez a ter ouvido em Portugal, aliás tanto quanto me lembro, apenas a ouvi nos dois contextos que referi, mas há outro aspecto interessante: numa das variantes que encontrei, o segundo verso era assim: 'Tira, bota, deixa o Zé Pereira ficar'. Não digo que haja relação, mas é muito curioso que em Portugal uma das figuras mais populares das festas, feiras e romarias, sejam os Zés Pereiras, os bonecos cabeçudos e gigantones que correm as ruas das vilas e aldeias, ao som dos bombos e das gaitas de foles, a anunciar que a festa começou. Acho uma pena que sejam tão pouco estudadas as histórias das culturas populares portuguesa e africana, sobretudo angolana, que vão fundar a riquíssima cultura popular brasileira, onde, por ser tão recente, são ainda muito legíveis os seus processos de génese e desenvolvimento.