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ora cá está a política
rosas
innersmile
Nunca votei no Bloco de Esquerda e tenho muito pouca simpatia pelo seu modo de estar na política, que considero farisaico e sobranceiro. Desconfio sempre dos que se proclamam de uma nova maneira de fazer política (afinal de contas está tudo inventado, e há mais de 2000 anos) e desconfio ainda mais daqueles que arrebanham para as suas hostes os que estão cansados da política e dos políticos. O único crédito que lhes dou é que acho divertidas, mas nada mais do que isso, algumas das suas acções de agitação e propaganda. Têm sentido de humor, e eu acho isso bem.

No entanto, nas próximas eleições europeias, cuja campanha começou este fim de semana, vou votar no Bloco. E faço-o porque o Bloco é o único partido em que me revejo na questão da imigração. Acho perigoso que a Europa se queira transformar numa fortaleza securitária, que dou à conta da fobia paranóica que todos sentimos em relação ao que é diferente e vem de fora. Mas acho deplorável a política das quotas de imigrantes que os estados membros da União têm aos poucos vindo a implementar e que agora pretendem transformar em política europeia.

Primeiro, porque acho de um cinismo a toda a prova, essa coisa de apenas querermos cá os imigrantes de que precisamos, na quantidade em que precisamos e para fazer as tarefas que precisamos que façam. Em termos morais, isso não tem outro nome que não seja escravatura. Uma Europa que se diz civilizada e pretende ser o farol da humanidade em termos de dignidade da pessoa e respeito pelos direitos humanos, acha que os pobres deste mundo são pessoas de segunda categoria, que podem ser contingentados em função das nossas necessidades. A sério, acho inqualificável.

Depois porque efectivamente acredito que o mundo é uno e todos temos, ou devíamos ter, o direito de nos instalarmos onde queremos. Porque é que um tecnocrata europeu tem o direito a empregar-se como quadro superior numa multinacional e ir viver, a ganhar balúrdios, numa capital do terceiro mundo onde a sua empresa explora a mão de obra fácil e barata, e um cidadão desse mesmo país não tem o direito de procurar uma vida melhor e vir viver para o país de onde esse tecnocrata é cidadão a trabalhar num emprego que mais ninguém quer, a ganhar o salário mínimo e a viver em condições precárias?

Finalmente acho insuportável o argumento de que os imigrantes nos vêm roubar os nossos empregos e mamar na nossa segurança social. Oiço este argumento há mais de 30 anos, ouvia-o aos grupos nacionalistas ingleses, de extrema-direita, e faz-me impressão que hoje se diga isso à boca cheia, por políticos soi-disant democráticos, sem pejo nem vergonha. Desde logo porque os imigrantes geralmente só ficam com os empregos que mais ninguém quer. Depois porque os imigrantes procuram oportunidades e por isso seguem as economias prósperas (ou alguém ainda não tinha dado conta de que os imigrantes dos países de leste foram-se embora e os brasileiros estão a deixar de vir?) Além disso porque os imigrantes que se decidem mesmo a ficar por cá são normalmente pessoas integradas, que trazem algo de novo e de positivo à nossa sociedade, que acrescentam e diversificam, tornando mais rica, a nossa geografia humana.
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